SEJA BEM-VINDO!

A ARTE RENOVA O OLHAR!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O DADAÍSMO


O Dadaísmo

Não existe movimento de vanguarda mais internacionalista do que o movimento Dada. Composto de inúmeros intelectuais de nacionalidades diversas, o Dadaísmo logo cruzou as fronteiras da Suíça, país neutro onde se refugiavam esses artistas que fugiam à guerra em seus países de origem. Esse fato foi também responsável pelo caráter eclético que as ideias do movimento apresentaram em todas as esferas da produção cultural. Tudo consistia em semear a confusão entre os gêneros e reduzir as fronteiras levantadas entre a arte, a literatura e muitas vezes a técnica, acumulando pinturas-manifestos, poemas-manifestos e poemas simultâneos com o acompanhamento de barulhos, colagens, fotomontagens, munindo-se de materiais estranhos à arte (ferro, fósforos, lugares comuns da linguagem, fotos, slogans jornalísticos) para fazer deles um conjunto homogêneo, coerente nele mesmo e sofrendo críticas dentro dele mesmo.
Dada criou seu próprio mito, apresentando-se como subversivo e terrorista, seja em matéria de arte, de literatura ou de moral social ou individual. Um de seus princípios básicos – o que explica a ausência de obras remanescentes do movimento – é sua negação da arte e sua destruição (a antiarte). Mas é preciso rever essa atitude negativista e dar-lhe uma conotação mais positiva no sentido de que a destruição do objeto artístico é uma atitude contemporânea e conceitual, de que a beleza artística só existe subjetivamente naquele que a aprecia, negando, assim, a crítica de arte que ensina a apreciar a obra segundo preceitos estabelecidos por ela mesma. O Dadaísmo (ver galeria) antecipava, desse modo, a atitude estética dos dias atuais, em que o observador – o outro lado da obra de arte, o lado do receptor – tomou importância fundamental.
A sinopse da peça Zenas improvisadas na revistaVeja dá um exemplo dessa atitude Dada nos dias de hoje: “Vencedora do Prêmio Shell em 2005, hilariante sessão de improviso comandada por quatro atores... A cada apresentação, o público assiste a um espetáculoúnico dividido em três blocos” (Veja Rio, 21 de abril de 2010, p. 84).
Foi em torno de um ícone da modernidade, o cabaret, que se reuniram os artistas do grupo. No Cabaret Voltaire, em Zurique, por volta de 1916, artistas como os romenos, Tristan Tzara e Marcel Janco, alemães como Hugo Ball e Richard Huesenbelck e o alsaciano Hans Arp lançaram as bases do movimento e uma revista para marcar seu desacordo contra as loucuras da guerra e a favor das atitudes vanguardistas. Se, no início, seu caráter não se diferenciava dos demais movimentos, aos poucos ele foi adquirindo seu caráter revolucionário de negação mas também colocando em prática novas soluções artísticas, como os happenings, em que a espontaneidade do espetáculo confrontava o ator-autor com um público primeiramente atônito, mas aos poucos parceiro desta novidade .
O movimento Dada, na verdade, encarnou perfeitamente bem o pensamento de Nietzsche ao propor a criação através da destruição. Embora visto principalmente como um movimento literário e ideológico, a intenção do movimento era misturar palavras, objetos, gritos, barulhos. Sua busca plástica aparentemente sem sentido, muito influenciada pelas máquinas, teve o grande mérito de revelar a incoerência como forma de descobrir o inconsciente, antecipando, assim, o Surrealismo.
Um dos traços fundamentais do Dadaísmo foi trazer para a obra de arte a dimensão do acaso. Foi Jean Arpque constatou primeiro que o acaso era vitorioso exatamente ali onde a criação consciente fracassou. O acaso se tornou o fio condutor do movimento dadaísta e se tornou uma garantia contra os perigos de uma coerência exterior ao gesto criador.
Embora presente em vários países, o Dadaísmo foi muito importante na França, onde a presença e a irreverência de Marcel Duchamp resumiram o espírito do movimento e seu legado para a posteridade.
Marcel Duchamp. O grande vidro ou A noiva despida por seus celibatários mesmo, 1915-1923
Marcel Duchamp. O grande vidro ou A noiva despida por seus celibatários mesmo, 1915-1923
O Grande vidro é uma complicadíssima combinação de estratégia artística e procedimento casual, resultando numa máquina impossível, como que celebrando o fim da razão. A obra se divide em duas partes: uma superior, o domínio da noiva, e outra de baixo, que contém o aparelho dos celibatários. O Grande vidro é uma espécie de máquina do amor, numa imagem irônica do ato amoroso humano como um processo mecânico, terminantemente frustrado e frustrante. A “noiva” é um conjunto de elementos mecânicos que acena para seus celibatários, também chamados de “moldes machos”, com três espaços em forma de tabuleta inseridos em sua “floração”, a nuvem perceptível de seu desejo sexual. Os celibatários reagem bombeando gás luminoso através de tubos capilares até os cones suspensos. O processo termina aí; o potencial narrativo e figurativo da obra se converte em detalhes anedóticos sobre os procedimentos seguidos pelo artista guardados em caixas” (Mink, 1994, p. 76).
Falar de Marcel Duchamp (ver galeria) é falar de um elemento singular e ao mesmo tempo múltiplo no mundo das artes. Filho de uma família abastada e culta (três de seus irmãos também eram artistas), Marcel Duchamp teve seu nome ligado não só ao Dadaísmo mas também ao Cubismo, ao Futurismo e ao Surrealismo, mas é por seu pensamento de arte conceitual que ainda hoje ele é conhecido. Ao propor seus ready-made e, assim, atribuir valor artístico a objetos apropriados ao acaso do cotidianoDuchamp colocou de ponta-cabeça a atitude sacralizadora da obra de arte como objeto único e insubstituível. Além disso, legitimou por sua fama e o reconhecimento intelectual por parte de seus pares a atitude irreverente e muitas vezes irônica que caracterizava os artistas modernos.
Marcel Duchamp. A fonte, 1917
Marcel Duchamp. A fonte, 1917
Já foram feitos muitos comentários sobre essa obra. Vários tratam-na como sendo o mais famosoready-made de Duchamp; todos são unânimes em reconhecer a ousadia do artista em enviar um objeto grotesco para ser exposto como obra de arte. Ele inaugura o paradoxo da arte: nas galerias de arte há objetos feitos por artistas; isso quer dizer que tudo que o artista expuser numa galeria de arte, é arte? A fonte, de 1917, precisava da arrogância do mundo das artes para se tornar um objeto artístico; no entanto, sua legibilidade como obra de arte pretendia demolir essa mesma arrogância.

Referência

MINK, Janis. Marcel Duchamp, 1887-1968, a arte como contra-arte. Lisboa: Taschen, 1994.
Fonte: Fundação CECIERJ - Curso de Artes - Modernismo

6 comentários:

Andressa disse...

Muito bom a postagem, me ajudou a fazer o trabalho de literatura *-* Oobg ..

Aline Carla disse...

Que bom Andressa! Fico feliz! Muito feliz! Pois uma das propostas do TRIBARTE é compartilhar conhecimentos.
Grande abraço.

Aclim disse...

Parabéns...abraço

Aline Carla disse...

Obrigada Aclim.

Ismael Angelus disse...

Cara, curti pra caramba esse post.
Já tinha algum tempo em que eu procurava um livro tratando desse grande movimento artístico 'do contra'.

Obrigado aí por me viabilizar tal coisa.

=D

Aline Carla disse...

Volte sempre Ismael! É um prazer tê-lo no TRIBARTE. Bjs.

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...