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quarta-feira, 7 de maio de 2014

O Lixo - Luis Fernando Veríssimo




Gosto muito de Luis Fernando Veríssimo, como escritor, humorista e leio as sua crônicas sempre a sorrir, senão a gargalhar. Costumava acompanhá-las no Expresso e tenho alguns livros que reúnem diversas crônicas e histórias que satirizam o cotidiano. Julgo que o humor é uma forma sublime de entendimento.
Aqui fica um texto retirado do seu livro "O analista de Bagé", apenas para partilhar uma leitura.

«O Lixo -
Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Dona Diarista, o que faço com meu filho? - Lasana Lukata


Li nesse fim de semana um jornal com a matéria sobre família em crise: “Seu juiz, o que faço com meu filho?”. Tive uma crise de riso, pois pode haver a essa hora juízes fazendo a mesma pergunta às suas diaristas: Dona Diarista, o que faço com meu filho? Há diaristas e domésticas que guardam grandes segredos... Até a Praça XV. Quando chega sexta-feira e vem aquele dilúvio de domésticas e diaristas da Zona Sul, da Barra e inunda a Praça XV... Ah, quantas notícias enquanto os ônibus não chegam... Quantas crônicas domésticas... Também, quem manda o ônibus demorar! Mas vejam: crônica não é fofoca, é literatura. Na Praça XV se faz literatura. Literatura oral. “Oralitura”.

Na capa do jornal dizia a chamada: “Pais apelam a juízes para controlar filhos”. Não sei se sairia na capa do jornal uma chamada de juízes apelando às suas diaristas... Sei que geral é a crise, mas vejo nisso o positivo retorno da solidariedade. O juiz ajuda a cuidar do filho da diarista e a diarista do filho do juiz. Lidar com a crise do outro parece mais fácil. Mas não é só da crise familiar que venho falar hoje. Esse mês de janeiro tivemos inundações de água e de crise. Essa é a crônica das crises.

Nesse início do mês acordei pela manhã ouvindo a notícia do roubo de 5 aves de diferentes espécies no zoológico. E comigo deduzi: é a crise. A crise provoca mudanças. Só três papagaios, presumindo-se que estavam sendo bem tratados no Zoo, deu para fazer uma boa compra ou pagar a mensalidade universitária. Não sei se cada papagaio ainda está por 120 na feira nem se as faculdades não subiram de preço.

Depois ouvi, quebraram dois dentes do compositor Guinga num aeroporto da Espanha. E de novo pensei: pode ser a crise. Mas então repensei que a crise já está instalada nos aeroportos da Espanha há muito tempo. Há quanto tempo brasileiros vêm sofrendo naqueles aeroportos?

Levantei e encontrei a Crise sentada no meu fogão. Nem café tinha para beber. Sou um desempregado. A Crise riu e disse: bebe água! Olhei, olhei... Disseram-me que a Crise seria marolinha, dessas modelos, inclusive com problemas de anorexia, mas quando a vi sobre o meu fogão, pernas grossas, peitões, glúteos volumosos e até as maçãs do rosto muito salientes me assustei e indaguei se não seria a Dona Prosperidade. Não, não! Eu sou a Crise. E mostrou a certidão de nascimento. Na verdade seu nome é Crisis e se pronuncia Kraisis. A boneca é norte-americana. Boneca.

Saí para comprar o jornal e um homem ao microfone fazia o seu pregão: “Leve por apenas 3 reais a miraculosa pomada de peixe elétrico! Cura luxação, entorse, pé destroncado, espinhela caída, espinhela caída pelo marido... Muito mais eficaz do que a Lei Maria da Penha. É passar a pomada de peixe elétrico e amanhã você estará novinha em folha para outra espinhela caída...”. A mulher queria ir à delegacia denunciar o marido, mas a crise... Tinha os R$4,40 da passagem... A pomada era R$3,00. E pensou, pensou... Vou levar a pomada. Sobrava R$1,40, já dava para o pãozinho que ainda não aumentou o preço, não diminuiu de peso, mas sejamos sincero: esfarela-se como biscoito de vento... A crise provoca mudanças.

E um camelô gritava ao meu lado. Na crise ele grita mais. Grita tanto que chama a atenção da polícia, dependendo do pregão que faz:
“Roubado é mais gostoso! 4 chocolates por apenas 1 real. Roubado é mais gostoso, ó!”
Mas em aparecendo a polícia, gera uma crise e o camelô se vê forçado a mudar de discurso:
“Olha aí, ó! 4 chocolates por apenas 1 real! Parece até roubado!”

Como a crise provoca mudanças. Só o que não muda há mais de 120 anos nesse país e muitos outros, quando há crise, é a velha fórmula capitalista gananciosa para os pobres empregados. Quando há crise eles só falam em demitir ou reduzir salários. Há mais de 120 anos somos sempre nós que carregamos a Pirâmide. Até quando esse hilotismo... Se nos juntássemos... Os 100 mil do Maracanã, os 100 mil do Carnaval, os 100 mil do oba-oba, ah se fôssemos como as domésticas e diaristas na sexta-feira na Praça XV! Seríamos um dilúvio.

Biografia:
Lasana Lukata é poeta, escritor por usucapião, São João do Meriti, RJ

quinta-feira, 1 de março de 2012

Joias reunidas


No exercício diário de ler crônicas, descubro e redescubro a Clarice que narra seu cotidiano com preciosidade e a incluo entre meus cronistas favoritos.
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Quem escreve crônica tem que ler crônica. Este é meu exercício permanente. Nos últimos dias tenho me divertido um bocado lendo textos de Clarice Lispector. Não entendeu? Disse ‘me divertido’, isso mesmo. Ganhei de presente “A descoberta do mundo” e estou me deleitando com as crônicas que Clarice escreveu para o Jornal do Brasil entre 1967 e 1973. Claro que ela não foge às suas angústias nem mesmo nas narrativas cotidianas, mas há, sim, como encontrar humor em seus textos.
Certos leitores que acompanham a produção dos cronistas atuais podem não compreender muito bem o universo e questionar a temática normalmente utilizada neste estilo jornalístico/literário. Porém, quem se arriscar a um passeio pelas páginas dos nossos maiores cronistas (minha opinião) Rubem Braga e Fernando Sabino, entenderá bem rápido o que é falar sobre o dia a dia. E o que me faz rir em Clarice Lispector cronista é justamente esta temática, do ponto de vista feminino, lá nos idos de 60, em meio à ferveção intelectual e política. Não se trata apenas da observação diária da mulher Clarice. Falo das situações comezinhas descritas pela escritora que era mãe, dona de casa prendada, dama da sociedade. E aí, caro leitor, La Lispector é diversão pura.

Ri de si mesma ao confessar-se “um pouco sem jeito na minha nova função daquilo que não se pode chamar propriamente de crônica”; dedica-se a questionamentos sobre os homens, algo do tipo “O homem. Como o homem é simpático. Ainda bem. O homem é a nossa fonte de inspiração? É. O homem é nosso desafio? É. O homem é o nosso inimigo? É. O homem é o nosso rival estimulante? É. O homem é o nosso igual ao mesmo tempo inteiramente diferente? É. O homem é bonito? É. O homem é engraçado? É. (...) O homem é um chato? Também. Nós gostamos de ser chateadas pelo homem? Gostamos.”
Quando resolve dizer o que pensa sobre o programa do Chacrinha, não faz a menor cerimônia em ser franca. Aponta o dedo e dispara sua crítica, chamando-o de doido, sem imaginação, obcecado. Tamanha honestidade no falar, no opinar sem máscara, me enche a face de sorrisos. Não que concorde (nem sei se concordo), mas Clarice é tão lúcida em 1967, que é capaz de afirmar que “Nossa televisão, com exceções, é pobre, além de superlotada de anúncios. Mas Chacrinha foi demais. Simplesmente não entendi o fenômeno. E fiquei triste, decepcionada: eu quereria um povo mais exigente”.
Clarice fala das amigas, dos seus passeios, comadres, bichos, lugares que frequentava, das suas empregadas, cada uma com sua idiossincrasia – da mineirinha calada à cozinheira vidente, passando pela Ivone, a qual no título da crônica a chama de “A Coisa”. Não deixa também de frisar que “não sou domínio público”, ao repelir os desejos de muitos em conhecê-la pessoalmente. Mas podia ser muito afável ao receber uma repórter em casa, adorar a entrevista e ainda escrever sobre isso com doçura e humor. “E fui me encantando com Cristina. É noiva. Que pena, pensei. Gostaria que ela ficasse bem sentadinha esperando muitos anos que meus filhos crescessem para um deles se casar com ela. (...) Percebo que afinal estou tendo a minha vingança: a moça escreve sobre mim, mas eu vou e escrevo sobre ela. (...) Mas não sei por que, depois que li a entrevista, saí tão vulgar. Não me parece que eu seja vulgar. E nem tenho olhos azuis”.
Ler Clarice dá uma saudade que não existe, pois que não a tive enquanto viva. Ler suas crônicas move uma sensação de que estive por ali, naqueles dias, a apreciar a gente que alvoroçava aqueles tempos. Ainda não terminei o livro; como disse, estou me deleitando. Das crônicas que li há pouco, antes de escrever sobre ela, escolhi estas palavras finais, de um texto de junho de 1969:
“MAS JÁ QUE SE HÁ DE ESCREVER
Mas já que se há de escrever, que ao menos não esmaguem as palavras nas entrelinhas.
AMOR À TERRA
Laranja na mesa. Bendita a árvore que te pariu.”


Leia mais: http://lounge.obviousmag.org/entrementes/2012/02/joias-reunidas.html#ixzz1nuKZupvB

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