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sábado, 10 de agosto de 2013

"MIA COUTO E A SAUDADE QUE NOS CONSTITUI"



"Antes de nascer o mundo", de Mia Couto: a ficção poética do autor e o tema da saudade. A saudade dói em todos nós, mas como seria nosso mundo se não a sentíssemos?



Já dizia Caetano Veloso, na famosa "Língua", que "só se pode filosofar em alemão". Pois aqui coloco uma nova frase (que também é famosa, e praticamente provada linguisticamente): só se pode sentir "saudades" em português, já que a palavra só existe como tal em nossa língua.
E já que, falando em Língua, "a poesia está para a prosa assim como o amor está para a amizade", conversaremos aqui sobre uma prosa poética, ou um um amor-amizade, que toca principalmente no tema da saudade.

Mia Couto é moçambicano de origem, vencedor de prêmios internacionais de literatura, famoso por "Terra Sonâmbula", seu primeiro título de grande expressão. Leitor de Fernando Pessoa e Guimarães Rosa, sua prosa é poética assim como a deste último, e sua obra é povoada por um mundo fantástico, que mostra sobretudo a magia da natureza, dos homens, da terra.

A literatura clássica em língua portuguesa, por mais realista e contida que seja, tem como característica exaltar algumas peculiaridades do que dá sentido ao mundo para seus falantes.
Em "Antes de nascer o mundo" (editado pela Cia. das Letras), Mia Couto apresenta uma história ocorrida em terras além do mundo, narrada por um menino: “Eu vivia em um ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: “Jesusalém”. Aquela era a terra onde Jesus havia de se descrucificar. E pronto, final.”



Jesusalém era a terra onde habitava Mwanito, o narrador desta história, e sua família. Nesta terra, haviam se isolado esses cinco homens, fugindo do passado e de todas as lembranças que lhes pudessem causar dor. Assim ao menos o pai imaginava que seria quando tomou essa decisão. A terra "onde Jesus havia de se descrucificar". Seria mesmo esta a terra da salvação dos homens? Um mundo habitado somente pelo presente paralisado?
Afastar-se da dor, negar as lembranças, seria essa a solução para aquilo que não conseguimos controlar e que nos causa angústia, essa dor no peito que não passa?

Os personagens de Mia Couto não possuem história vivida, não estão inseridos no correr da vida. Em seus livros, o rio simboliza o tempo, simboliza o contínuo da vida. Os rios não corriam na terra de Jesusalém. Os personagens tanto estavam afastados do resto do mundo quanto de si mesmos. Retirar o passado é quase como retirar essa identidade, esse saber de si, o sentir-se parte desse todo de possibilidades e corredeiras que é a vida.

O que fomos, o tempo, é quase todo o sentido de nossas vidas. A saudade é essa expressão do que fica em nós depois de se recuperar a memória, de se resgatar a rota do rio. É aquela coisa boa de saber que tudo e todos que se foram nos constituem hoje, e que não mais têm volta, como as águas do rio. É a certeza de saber que o passado pode ser honrado, e revivido de novas formas.

Não se vive apenas de saudades, mas não se vive com saudades sem dor. A dor da perda é revivida a cada lembrança, mas há certeza de que o que perdemos ficou em nós, de alguma maneira. E os falantes das outras línguas, não sentiriam a "saudade"? Você pode "miss a thing" em inglês, você pode "manquer quelque chose" em francês, mas a saudade é um sentimento que não tem tradução. Ela une nossas almas de brasileiros, portugueses, moçambicanos, angolanos... É uma dor que dá sentido a quem somos, constituindo o tecido que abarca nosso mundo da lusofonia.

Fonte: Obvious

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