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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Para Ti


Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite ...

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Mia Couto - O menino que escrevia versos


O menino que escrevia versos


Mia Couto


De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(VERSOS DO MENINO QUE FAZIA VERSOS)




— Ele escreve versos!

Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.

— Há antecedentes na família?

— Desculpe doutor?

O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:

— Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.

Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.


Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.

— São meus versos, sim.

O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?

Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.

— O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.

Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.

Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:

— Dói-te alguma coisa?

—Dói-me a vida, doutor.

O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:

— E o que fazes quando te assaltam essas dores?

— O que melhor sei fazer, excelência.

— E o que é?

— É sonhar.

Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.

O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:

— Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica.

A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.

Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendi dos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.

— Não continuas a escrever?

— Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.

O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.

— Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços.

— Não importa — respondeu o doutor.

Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu.

Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:

— Não pare, meu filho. Continue lendo...

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Versos para a Patrícia






Versos para a Patrícia





1. Ilha

Tenho a sede das ilhas
e esquece-me ser terra

Meu amor, aconchega-me
meu amor, mareja-me

Depois, não
me ensines a estrada.

A intenção da água é o mar
a intenção de mim és tu.



2. Véspera

Há um perfume
que trabalha em mim
e me acende,
antigo,
sobre a poeira

Há um rosto
que regressa à fonte
água readormecendo

E só hoje reparo
o labor das nuvens
corais solares
arquitectando o céu

Pássaros brancos
vão pousando
na varanda dos teus olhos

Só hoje enfrento o sol
fogo imóvel,
labareda de água

Andemos, meu amor,
de coração descalço sobre o sol

Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'
Pedro, aluno do 3º ano do EM do C.E.C.J, ao conhecer a obra de Mia Couto dedica estes versos à Patrícia.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Rosalinda, A Nenhuma


É preciso que compreendam: nós não temos competência para arrumarmos os mortos no lugar do eterno.
Os nossos defuntos desconhecem a sua condição definitiva: desobedientes, invadem-nos o quotidiano, imiscúem-se no território onde a vida deveria ditar sua exclusiva lei.
A mais séria consequência desta promiscuidade é que a própria morte, assim desrespeitada pelos seus inquilinos, perde o fascínio da ausência total. A morte deixa de ser a mais incurável e absoluta diferença entre os seres.
Rosalinda era mulher retaguarda, fornecida de assento. Senhora de muita polpa, carnes aquém e além roupa. Sofria de tanto volume que se sentava no próprio peso, superlativa. Já fora esbelta, dessas mulheres que explicam o amor. Magreza sucedida em seus tempos. Pois que, desde que enviuvou, ela se desentreteu, esquecida de ser. Rosalinda, agora, se cansava de tanta hora: mascava mulala (Mulala - raiz de planta usada para limpeza dos dentes e que tinge de laranja os lábios e gengivas dos que dela se servem habitualmente.), enrolando a saliva-laranja. As mulheres gordas não zangam com a vida: fazem lembrar os bois que nunca esperam tragédias.
No desfolhar das tardes, ela se aprovava em triste rotina. Visitava o cemitério. E isso fazia muito diariamente. A campa do falecido marido, o Jacinto, ficava bem no fundo do cemitério. Condizia com o lugar que ele sempre tivera, nas traseiras da vida. De passo miúdo, Rosalinda rumava entre as moradias subtérreas, vacilando como se magoasse em sua própria sombra. Já no lugar, ela em si se joelhava, vencendo as pernas. E ali se deixava, na companhia sozinha do defunto.
Assim se foram prostrando as datas, anos suados, anos somados. Rosalinda se antepassava, tantos eram os parentes já enroscados no grande sono. Só ela restava, em seus retroactivos pensamentos. Junto à campa, ela se memoriava:
Jacinto, grande sacana.
Com gesto terno, ela alisava a areia, afagando lembranças. Deus lhe punisse, Deus adoecesse. Mas quem explicava aquela saudade do sofrimento, o doce sabor de amargas lembranças?
- Tu me amarraste a vida, me forneceste de porrada.
Ela estava de razão: o Jacinto só jurara fidelidade às garrafas. Se é que partira, sua alma devia ter viajado em forma de garrafa. Para mais, ele nos amores se multiplicara, retribuindo-se às tantas mulheres. Quando chegava a casa, noite imprópria, já seus lábios estavam cegos. A esta hora, dizia ele, só sei ler nos copos. Falava assim só para lhe magoar. Porque ele se matriculara na escola nocturna, cumprindo promessa de mudar de vida. Frequentou as aulas mas só por poucas noites. Rosalindinha: estou-te a explicar-me. A vida não vale as penas. Não sou um homem de escola, as letras me cansam de mais. Eu sou um fruto, Rosalinda. Um fruto, mesma coisa o caju. Alguém ensina um fruto a ficar maduro? Responde, Rosalinda. Alguém explica alguma coisa ao caju? Ninguém. Ele só recebe lições da terra. Então, um homem só tem que ficar bem em cima do chão, beneficiar das completas raízes. Não é como esses que deixam a terra, vão para o estrangeiro, acabam por nem sentir o chão que pisam.
Esses são lenha seca: um pedacito de fogo e ardem logo.
Rosalinda já sabia. Aquela era conversa prévia dos murros, prefácio de porrada. Mal que surgisse o fundo da garrafa, as palavras davam lugar à pontapesaria. Depois, ele saía, farto de ser marido, cansado de ser gente.

sábado, 10 de agosto de 2013

"MIA COUTO E A SAUDADE QUE NOS CONSTITUI"



"Antes de nascer o mundo", de Mia Couto: a ficção poética do autor e o tema da saudade. A saudade dói em todos nós, mas como seria nosso mundo se não a sentíssemos?



Já dizia Caetano Veloso, na famosa "Língua", que "só se pode filosofar em alemão". Pois aqui coloco uma nova frase (que também é famosa, e praticamente provada linguisticamente): só se pode sentir "saudades" em português, já que a palavra só existe como tal em nossa língua.
E já que, falando em Língua, "a poesia está para a prosa assim como o amor está para a amizade", conversaremos aqui sobre uma prosa poética, ou um um amor-amizade, que toca principalmente no tema da saudade.

Mia Couto é moçambicano de origem, vencedor de prêmios internacionais de literatura, famoso por "Terra Sonâmbula", seu primeiro título de grande expressão. Leitor de Fernando Pessoa e Guimarães Rosa, sua prosa é poética assim como a deste último, e sua obra é povoada por um mundo fantástico, que mostra sobretudo a magia da natureza, dos homens, da terra.

A literatura clássica em língua portuguesa, por mais realista e contida que seja, tem como característica exaltar algumas peculiaridades do que dá sentido ao mundo para seus falantes.
Em "Antes de nascer o mundo" (editado pela Cia. das Letras), Mia Couto apresenta uma história ocorrida em terras além do mundo, narrada por um menino: “Eu vivia em um ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: “Jesusalém”. Aquela era a terra onde Jesus havia de se descrucificar. E pronto, final.”



Jesusalém era a terra onde habitava Mwanito, o narrador desta história, e sua família. Nesta terra, haviam se isolado esses cinco homens, fugindo do passado e de todas as lembranças que lhes pudessem causar dor. Assim ao menos o pai imaginava que seria quando tomou essa decisão. A terra "onde Jesus havia de se descrucificar". Seria mesmo esta a terra da salvação dos homens? Um mundo habitado somente pelo presente paralisado?
Afastar-se da dor, negar as lembranças, seria essa a solução para aquilo que não conseguimos controlar e que nos causa angústia, essa dor no peito que não passa?

Os personagens de Mia Couto não possuem história vivida, não estão inseridos no correr da vida. Em seus livros, o rio simboliza o tempo, simboliza o contínuo da vida. Os rios não corriam na terra de Jesusalém. Os personagens tanto estavam afastados do resto do mundo quanto de si mesmos. Retirar o passado é quase como retirar essa identidade, esse saber de si, o sentir-se parte desse todo de possibilidades e corredeiras que é a vida.

O que fomos, o tempo, é quase todo o sentido de nossas vidas. A saudade é essa expressão do que fica em nós depois de se recuperar a memória, de se resgatar a rota do rio. É aquela coisa boa de saber que tudo e todos que se foram nos constituem hoje, e que não mais têm volta, como as águas do rio. É a certeza de saber que o passado pode ser honrado, e revivido de novas formas.

Não se vive apenas de saudades, mas não se vive com saudades sem dor. A dor da perda é revivida a cada lembrança, mas há certeza de que o que perdemos ficou em nós, de alguma maneira. E os falantes das outras línguas, não sentiriam a "saudade"? Você pode "miss a thing" em inglês, você pode "manquer quelque chose" em francês, mas a saudade é um sentimento que não tem tradução. Ela une nossas almas de brasileiros, portugueses, moçambicanos, angolanos... É uma dor que dá sentido a quem somos, constituindo o tecido que abarca nosso mundo da lusofonia.

Fonte: Obvious

sábado, 6 de abril de 2013

MIA COUTO





Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras, mas só há duas nações – a dos vivos e dos mortos.

MIA COUTO

No livro "Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra"

sábado, 19 de maio de 2012

PARENTES DO FUTURO


"O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro." 
(Mia Couto, escritor moçambicano, no romance "Terra Sonâmbula")

Imagem: Foto de Itaperuna.

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