No sertão da minha terra Fazenda é o camarada que ao chão se deu Fez a obrigação com força Parece até que tudo aquilo ali é seu Só poder sentar no morro E ver tudo verdinho, lindo a crescer Orgulhoso camarada, de viola em vez de enxada Filho de branco e de preto Correndo pela estrada atrás de passarinho Pela plantação a dentro Crescendo os dois meninos sempre pequeninos Peixe bom dá no riacho De água tão limpinha, dá pro fundo ver Orgulhoso camarada, conta estórias pra moçada Filho do senhor vai embora Tempo de estudo na cidade grande Parte, tem os olhos tristes Deixando o companheiro na estação distante Não esqueça, amigo, eu vou voltar Some longe o trenzinho ao Deus dará Quando volta já é outro Trouxe até sinhá mocinha para apresentar Linda como a luz da lua Que em lugar nenhum rebrilha como lá Já tem nome de doutor E agora na fazenda é quem vai mandar E seu velho camarada Já não brinca mais, trabalha...
Maria Rita criou um show para homenagear Elis Regina. De quebra, ensinou a não ter vergonha ou receio de dizer “eu te amo, mãe”.
Muito se tem dito a respeito da série de shows que Maria Rita tem feito com repertório criado somente com músicas gravadas por Elis Regina. Muito se tem mencionado sobre a emoção que toma os olhos da cantora e do público. Também se tem falado acerca das semelhanças – para alguns, agora mais evidentes – entre mãe e filha. E até sobre o macacão branco da cantora se tem discutido. Mas já aviso aos navegantes: esse não é um texto de alguém que já assistiu ao show. O propósito é refletir sobre esse momento vivido por Maria Rita.
Desde que começou sua carreira musical, Maria Rita era cobrada por não cantar músicas já interpretadas por sua mãe. Talvez fosse uma tentativa de evitar comparações. Ou por respeito frente à grandiosidade de Elis Regina na música brasileira. Quem sabe, algum constrangimento, vergonha. Enfim, ideias que só passam de hipóteses, mas que muito tem a dizer sobre nós e nossas mães. Quem nunca se sentiu inibido frente à mãe que quebre agora a sua caixa de som.
Poderia agora dizer que o coração de Maria Rita aperta quando sobe ao palco nessa turnê. Também poderia dizer que a cantora, desde que começou esse show, tem sonhado frequentemente com a mãe. Eu até poderia afirmar que ela sempre chora quando canta a música preferida de Elis. Poderia, mas não vou. Por quê? Porque só quem sabe da nossa relação mãe e filho(a) é a gente mesmo.
Dizem que seguir os passos dos pais – ainda mais quando esses são ícones – não é uma tarefa fácil, pois o(a) filho(a) sempre levará desvantagem nas comparações. E essa não parece ser uma preocupação atual de Maria Rita. A impressão que se tem é que nesses 9 anos desde o lançamento do álbum “Maria Rita”, a cantora procurou trilhar seu próprio caminho, longe da sombra da monstra Elis. Agora, com tudo mais consolidado, ela se permitiu e se preparou – com um repertório fabuloso – para homenagear publicamente a cantora Elis. Maria Rita tornou público um “eu te amo” para a genitora Elis, que mesmo com toda a genialidade, é tão mãe como as nossas mães.
Em 1996, professoras do Conservatório Estadual de Música Cora Pavan Capparelli, de Uberlândia, Minas Gerais, deram início a um projeto denominado "Doce Harmonia", que une prática instrumental. de conjunto e pesquisa musical, do qual o CD "Aquarela Brasileira" é um testemunho de seus resultados.
O projeto foi então idealizado e realizado pelas docentes Alice Pereira Pacheco e Maria Tereza Borges Rezende, contando atualmente com a participação da professora Maristela Alvim.
O seu escopo foi o de desenvolver nos alunos a prática de conjunto, fomentando ao mesmo tempo o domínio instrumental, o entusiasmo pelo estudo e pela atividade musical. Pode-se ver, nessa iniciativa, expressão de uma convicção da utilidade da prática camerística em todas as fases do aprendizado musical, uma vez que a experiência de conjunto contribui à socialização, traz alegria na execução coletiva, supera limitações decorrentes do ensino e do estudo individual, motivando, ao mesmo tempo, o exercício técnico e o aperfeiçoamento na execução do instrumento.
Característica do projeto "Doce Harmonia" é colocar em relêvo um instrumento utilizado em larga escala na Educação Musical, valorizando-o nas suas potencialidades artísticas: a flauta-doce.
O projeto atualiza, assim, sob novas bases, iniciativas que, nos anos sessenta, em São Paulo, implantaram a prática de conjunto de flautas-doce no âmbito do ensino de conservatórios. O seu idealizador foi o maestro e compositor Andrelino Vieira, diretor do Conservatório Musical Oswaldo Cruz. Impulsos foram dados sobretudo por alunos provenientes de Israel, que trouxeram para o Brasil a prática do instrumento e de conjunto conhecida nas escolas israelitas. Sob a condução da professora Maria do Carmo Vieira, responsável pelo Canto Orfeônico no Ginásio Oswaldo Cruz, essa proposta inseriu o conjunto de flautas-doce nos ideais do ensino orfeônico na tradição paulista do movimento de Villa-Lobos, marcados por intuitos de socialização através da música e de fomento da música brasileira.
A iniciativa defrontou-se já então com o problema da falta de repertório para o instrumento. Com a intenção de vincular a prática à tradição brasileira, Andrelino Vieira passou a criar peças e a adaptar composições e gêneros do repertório mais popular, sobretudo daquele de banda, passando o conjunto a executar, com flautas-doce, marchinhas, valsas e dobrados, aproximando a prática dos choros e dos conjuntos de pífaros do Nordeste. Algumas dessas peças foram publicadas. Essa prática tradicional era conhecida dos estudos de tradições brasileiras, salientando-se aqui a pesquisa sobre o "cabaçal" do Nordeste realizada por Martin Braunwieser durante a Missão Folclórica do Departamento de Cultura do Município de São Paulo, na década de trinta, e discutida no Conservatório Paulista de Canto Orfeônico.
Interrompida essa iniciativa em meados da década de sessenta, o projeto "Doce Harmonia", sem dela ter conhecimento, recapitula agora o pioneirismo da iniciativa, testemunhando, assim, a atualidade e a utilidade de seus princípios.
Muito mais intensa e consciente surge, em Uberlândia, a intenção de proceder-se sistematicamente ao levantamento e ao desenvolvimento de repertório. Diferentemente daquele dos anos sessenta, o fomento da flauta-doce no Conservatório Estadual de Música Cora Pavan Capparelli pode contar agora com obras escritas para o instrumento nas últimas décadas por vários compositores brasileiros. As intenções do projeto em valorizar artisticamente o instrumento motiva, também, a criação de novas obras.
A pesquisa de repertório, iniciada em 2007, considerou não apenas composições da esfera da música erudita, mas também da popular. Os intuitos educativos da prática de conjunto associaram-se aqui àqueles da valorização e da divulgação de música sentida como expressão de identidade brasileira. Poder-se-ia dizer que o processo performativo da prática musical socializada uniu-se àquele da difusão.
O trabalho de pesquisa levou à gravação de um DVD, de títuloAquarela Brasileira. Em 2008, deu-se início à produção do CD de mesmo título, finalizado em 2009. O projeto foi possibilitado pelo apoio, entre outros, de Mirtes Guimarães, diretora do Conservatório, da maestrina Cora Pavan Capparelli, e de Mônica Debs Diniz, da Secretaria do Estado de Educação de Minas Gerais, realizando-se graças ao empenho de Alice Pereira Pacheco.
O CD compreende-se como uma realização coletiva. Sob a direção de Betiza Landim e Maristela Alvem, dela participaram os flautistas Ana Carolina de Oliveira, Anderson Leite Ladário, Andressa Leite Ladário, Esther Ferreira de Souza, Geórgia Mesquita Cardoso, Helga Raíza Vogel Cardoso, Josiane Macedo Ferreira, Mariana Oliveira Segantini, Nayara Bernardes da Cunha, Rafael Augusto da Silva, Renato Augusto de Assis Silva, Romes Jorge da Silva Júnior e Rovena Piau Ferreira Freitas, acompanhados, ao piano, por Ernane Machado, e, à percussão, por Leonor Júnior. A realização técnica ficou a cargo de Adilson Mazzini, sendo a produção assessorada por Alice Pereira Pacheco, Maria Tereza Borges Rezende, Romes Jorge da Silva Júnior, Rafael Augusto da Silva e Rovena Piau Ferreira Freitas. A apresentação visual coube a Enio Ciconelle e Tayná Piau Ferreira Freitas, incluindo fotografias de Marta Araújo.
O programa apresentado manifesta o intuito de consideração da música popular brasileira em realização de caráter pedagógico. Inclui, assim, além da composição que inspirou a denominação do CD, a Aquarela do Brasil de Ari Barroso (arranjo de Marcos Leite) e de Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu (Arranjo de A. Arantes e adaptação de Gleide Gustin); peças de Luiz Gonzaga (Algodão, arranjo de Liduino Pitombeira; Asa Branca, com H. Teixeira, arranjo de A. Arantes e adaptação de de G. Gustin); Flávio Venturini/Guarabira (Espanhola, arranjo de Eduardo D. Carvalho); Pixinguinha (Rosa, com Otávio de Souza, arranjo de Marcos Leite; Carinhoso, arranjo de Alberto Arantes e adaptação de Gleide Gustin); Antonio Carlos Jobim (Luíza, arranjo de Eduardo D. Carvalho), terminando com Caetano Veloso (Lua, Lua, Lua, Lua, arranjo de Marcos Leite). O Folclore brasileiro está representado com Samba-lê-lê, em arranjo de Calimério Soares.
A.A.B.
Indicação bibliográfica para citações e referências:
Bispo, A.A. (Ed.). "Aquarela Brasileira - Projeto Doce Harmonia". Revista Brasil-Europa 128/28 (2010:6).