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sexta-feira, 31 de julho de 2015

"EU, VOCÊ, A SOCIEDADE, E A MEXERICA DESCASCADA" por Carlos Mion




Não querem descascar a mexerica, não querem ser contrariados, não querem sair de casa, não querem conversar, não querem perder, não querem ouvir um NÃO, não querem ficar sozinhos, não querem sofrer, não querem ficar tristes, não querem resolver problemas, não querem ler textos com mais de 3 linhas, não querem entender opiniões contrárias, não querem nada com nada. Só querem atenção, só querem ser especiais.

Marcela reclamava do tempo que tinha que esperar no sinal vermelho. Havia acabado de completar seus 18 anos, e ganhara um carro do pai de presente. Aqueles 50 segundos que ficava parada em frente ao semáforo era algo totalmente atormentador para ela.

O Paulo detestava ler qualquer texto na internet com mais de 3 linhas. Não queria perder tempo com textos longos. Inclusive parou de ler esse texto quando falei acima da Marcela.

O Gustavo não gostava de sofrer, e por isso mesmo excluía qualquer um da sua vida (e do Facebook também), ao primeiro sinal de desagrado. Queria evitar a fadiga.

A Júlia esperou 5 minutos a mais pela entrega da pizza em sua casa. O folheto da pizzaria dizia que o pedido chegava em no máximo 30 minutos. Chegou em 35. Ironizou o motoboy: "Cortou caminho, foi?"

A Gabriela não sabia ouvir um “não”. Ou era do jeito dela, ou fazia um escândalo. Sua frase lema era: “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu fui sempre assim...”.

O Michael achava que estava sempre certo. Não via qualquer problema em ensinar outras pessoas a forma correta de se fazer as coisas, que era a forma dele é claro. Dizia ele: “Eita povo burro!”

O Guilherme era trollador. Seu nick nos fóruns de games era: “Troll Master”. Passava o dia inteiro ofendendo qualquer um. Tudo pela zoeira. Dizia que bullying era coisa de gente fresca que não sabe brincar.

A Isabella amava chamar atenção. Gravou um pornozinho com o namorado e mandou para um grupo de amigos do Whatsapp. Na pressa em compartilhar a proeza, mandou para o grupo errado. Depois disse que foi o namorado quem gravou sem a permissão dela. Só não soube explicar porque ela estava segurando o celular.

A Fernanda comprou mexerica descascada. Uma bandeja com 16 gomos cuidadosamente posicionados e embalados. Um pouco mais caro que o normal. Reclamou que veio com semente.

A geração dos que já nascem especiais (é o que acham) está aí, pronta para pagar o preço que for para não perder tempo, para chamar atenção, para ter o direito de ser preguiçosa, para continuar sendo especial.

E você? Vai pagar o preço?



© obvious

2 comentários:

Aroldo Vieira de Souza disse...

Às pessoas, em particular os brasileiros, sobretudo os nascidos nos últimos 30,40 anos, acostumados a "lei do gerson" passam achar que o mundo lhes permite tudo, o estado de desinteresse com as coisas necessárias desse país é de causar espécie.
E esse modo estranho é cada vez mais usual em todos os níveis do estrato social

Aline Rodrigues disse...

Concordo com seu comentário!
E fico extremamente feliz com sua participação!

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