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domingo, 17 de dezembro de 2017

"Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo"





RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade , "Receita de Ano Novo". 

Editora Record. 2008.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

“Nesta minha vida de retinas fatigadas”



Penso em você principalmente como a minha possibilidade de paz — a única que pintou até agora, “nesta minha vida de retinas fatigadas”. 
Eu te espero, e te curto todos os dias. 
Eu te gosto. Muito.
 – Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 31 de julho de 2015

"EU, VOCÊ, A SOCIEDADE, E A MEXERICA DESCASCADA" por Carlos Mion




Não querem descascar a mexerica, não querem ser contrariados, não querem sair de casa, não querem conversar, não querem perder, não querem ouvir um NÃO, não querem ficar sozinhos, não querem sofrer, não querem ficar tristes, não querem resolver problemas, não querem ler textos com mais de 3 linhas, não querem entender opiniões contrárias, não querem nada com nada. Só querem atenção, só querem ser especiais.

Marcela reclamava do tempo que tinha que esperar no sinal vermelho. Havia acabado de completar seus 18 anos, e ganhara um carro do pai de presente. Aqueles 50 segundos que ficava parada em frente ao semáforo era algo totalmente atormentador para ela.

O Paulo detestava ler qualquer texto na internet com mais de 3 linhas. Não queria perder tempo com textos longos. Inclusive parou de ler esse texto quando falei acima da Marcela.

O Gustavo não gostava de sofrer, e por isso mesmo excluía qualquer um da sua vida (e do Facebook também), ao primeiro sinal de desagrado. Queria evitar a fadiga.

A Júlia esperou 5 minutos a mais pela entrega da pizza em sua casa. O folheto da pizzaria dizia que o pedido chegava em no máximo 30 minutos. Chegou em 35. Ironizou o motoboy: "Cortou caminho, foi?"

A Gabriela não sabia ouvir um “não”. Ou era do jeito dela, ou fazia um escândalo. Sua frase lema era: “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu fui sempre assim...”.

O Michael achava que estava sempre certo. Não via qualquer problema em ensinar outras pessoas a forma correta de se fazer as coisas, que era a forma dele é claro. Dizia ele: “Eita povo burro!”

O Guilherme era trollador. Seu nick nos fóruns de games era: “Troll Master”. Passava o dia inteiro ofendendo qualquer um. Tudo pela zoeira. Dizia que bullying era coisa de gente fresca que não sabe brincar.

A Isabella amava chamar atenção. Gravou um pornozinho com o namorado e mandou para um grupo de amigos do Whatsapp. Na pressa em compartilhar a proeza, mandou para o grupo errado. Depois disse que foi o namorado quem gravou sem a permissão dela. Só não soube explicar porque ela estava segurando o celular.

A Fernanda comprou mexerica descascada. Uma bandeja com 16 gomos cuidadosamente posicionados e embalados. Um pouco mais caro que o normal. Reclamou que veio com semente.

A geração dos que já nascem especiais (é o que acham) está aí, pronta para pagar o preço que for para não perder tempo, para chamar atenção, para ter o direito de ser preguiçosa, para continuar sendo especial.

E você? Vai pagar o preço?



© obvious

sexta-feira, 15 de maio de 2015

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