Roberto
Gomes
– sentará a meu lado e me
perguntará, como quem consulta um velho alfarrábio:
- Vô, o que é uma
carta?
Eu, quem sabe meio esquecido
ou confuso, talvez fique pensando a que carta ela estará se referindo. Carta de
baralho? Carta náutica? Carta celeste?
- Ah, sim, carta! exclamarei
afinal.
E terei uma enorme
dificuldade em explicar do que se trata.
Uma carta exigia certa
cerimônia, além de data, texto e assinatura. Implicava um tratamento, por
exemplo. Uma certa linguagem que, dependendo do destinatário, não poderia ser
banal nem usar gírias.
Também não se escrevia carta
a qualquer momento. Era preciso criar o momento propício para uma carta. Eu – e
direi isto à Luiza – gostava de escrever cartas à noite, depois que as tarefas
do dia haviam rendido sua inutilidade, numa escrivaninha junto à janela e
fumando alguns cigarros. Parecia romântico e inspirador. Outros preferiam um
cálice de conhaque.
O papel devia ser limpo,
alvo, imaculado. Qualquer amassado ou rasura e a carta iria pro lixo.
Recomeçava-se. Aliás, eram feitas várias versões.
- Isto se chamava “passar a
limpo”, Luiza. A gente escrevia e, depois, copiava tudo de novo, com letra
melhor, corrigindo os tropeços gramaticais, caprichando na
caligrafia.
- Caligrafia,
vô?
- Bom, isso eu explico
amanhã. Voltemos à carta.
Dependendo de quem fosse o
destinatário, da maior ou menor habilidade do remetente, do estado da caneta –
aliás, chamadas “canetas tinteiro”; um dia eu explico –, uma carta poderia
exigir meia dúzia de versões. A letra, é claro, precisava ser legível, o que seu
avô jamais conseguiu, apesar dos esforços que fez.
Era preciso falar do tempo,
contar as últimas...
- Que
últimas?
- As últimas notícias,
Luiza. Não havia jornal das oito. Aliás, não havia
televisão.
Aqui Luiza, abismada, abrirá
uns olhos enormes, talvez se indagando de onde teria saído aquele avô tão remoto
e pré-histórico.
Embaraçado, eu
continuaria:
- Bom, depois a gente
escrevia a respeito do assunto principal da carta. Começava assim: “o que me
leva a escrever...” Quando estudante, eu escrevia a meu pai pedindo um aumento
de mesada. Ou escrevia a minha mãe anunciando o dia em que chegaria de viagem,
pedindo que me recebesse com uma tainha ao forno. Outros escreviam para discutir
problemas familiares, profissionais, contar das últimas namoradas, de um filme
lançado aqui em Curitiba e que só chegaria a Blumenau no ano
seguinte.
Depois, era só colocar num
envelope, selar e levar ao correio.
- Levar ao correio? ela
perguntaria. Não é...
- Não. Não é como o e-mail,
direi.
- Ah,
sei. E por que não escrevia naquela máquina ali?
Luiza apontaria para uma
máquina de escrever portável que conservo numa prateleira e na qual datilografei
meus primeiros livros.
- Era considerado falta de
educação. Carta devia ser manuscrita. Só muito depois é que se começou a aceitar
carta datilografada, mas aí eu não era mais adolescente.
E Luiza me olhará com olhos
deslumbrados, como se estivesse ouvindo uma história que fosse produto da mais
delirante fantasia.
Enfim, precisarei explicar à
Luiza que o e-mail – que é tão prático, tão rápido, tão bom – acabou com a
mágica das cartas. E ela, menina sensível e imaginativa, ficará maravilhada
justamente por conta desta magia perdida. Cartas guardadas, segredos
manuscritos, as últimas notícias, confissões íntimas, inquietações da alma. Tudo
isto deixará Luiza com a imaginação
acesa. E ela entenderá que carta não é um e-mail mais longo. É outra coisa.
Assim como um romance não é um conto comprido. É outra coisa. Assim como um amor
não é uma atração duradoura. É outra coisa.
E um dia Luiza pegará uma
caneta (tinteiro, ainda restará alguma), se sentará numa sala quieta e, sob uma
lâmpada pálida, talvez preocupada, talvez com saudades, colocará uma data sobre
um papel imaculado e escreverá:
“Querido
vovô,”
E descobrirá o que é uma
carta.
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br
