O assunto da vez é ou deveria ser o artigo da atriz Fernanda Torres na Folha de SP, que vem arrasando em suas crônicas e que agora entrou em um assunto que deveria ser do interesse de todos: Política!
Quando vamos acordar para o fato de que a política é a maior demonstração de inteligência de uma sociedade, que é determinante para o nosso futuro individual e coletivo e, principalmente, de que nós somos animais políticos. Continuaremos a usá-la sempre por toda a vida e quando a negligenciamos acontece o que estamos assistindo incrédulos: corrupção desenfreada com nefastas consequências socioeconômicas, culturais e ambientais.
Fernanda escreveu recentemente na Folha de SP sobre a “famosa” reunião na casa do Caetano Veloso com o Dep. Marcelo Freixo. Na opinião dela, este surge como político vocacionado, idôneo e obstinado, voltado para a recomposição do papel do Estado. Com experiência no confronto com as milícias, ele teria muito a dizer sobre a destituição do poder público, corrupção eleitoral, atividade mafiosa, favorecimento de empresas privadas e instrumentos para detê-los. Cobra investimento mais consistente nas UPPs sociais, para barrar o avanço dos milicianos nas áreas ocupadas e propõe investida contra os dois grandes braços da contravenção fluminense, plantados, segundo ele, nas áreas da saúde e do transporte. Para Fernanda, tudo conspira para inviabilizar a trajetória dele, que não quer, evidentemente, contar com o usual “caixa dois”, pois a ilegalidade virou norma.
Contudo, sou obrigado a discordar dela quando afirma: “Vê-se com naturalidade o anseio do empresariado de receber vantagens nas licitações de infraestrutura em troca do apoio financeiro de campanha. É assim. A árvore de Natal de atravessadores corrói verbas e retribui com superfaturamento e hospitais fantasmas”.
Este comportamento é notório, mas hoje a população e o empresariado, exatamente por isso, anseiam por uma virada de página, não querem mais voos de galinha na economia e exigem um basta nessas práticas nocivas, o que inviabiliza a participação ativa da sociedade na democracia.
O pós-2016 já assusta, pois não há o menor sinal de um legado que revitalize a economia para pagar a conta dos gastos bilionários em elefantes brancos dos mais variados matizes que nos estão impondo, sem falar da queda abrupta de obras bilionárias de infraestrutura e imobiliária que irão abalar seriamente a construção civil, o grande pilar da economia atual do Rio.
Precisamos acordar dessa apatia coletiva que já rendeu mais de meio século de incúria administrativa, que faliu os serviços públicos e privados completamente, atirando-nos numa situação em que, em 2007, somente 5% da economia era formal. Repare ao seu redor, o que funciona? E quando algo funciona, já fez uma relação custo benefício para ver se vale a pena? Tudo é mais caro aqui, já reparou? Realmente precisamos de mudanças, Fernanda, e elas têm que vir agora. Já constatou a quantidade de movimentos contra a corrupção? Falta é um líder, porque projeto crível já existe.
O Caetano polemizou no jornal O Globo, citando que ela já se reuniu tanto com o Marcelo Freixo, quanto com o Sergio Cabral, afirmando que ela está dividida entre militância imaculada, isolamento, tarefa de fugir do papel de Cassandra, daquele que, em meio a “tanta euforia”, só fala em mazelas, e o grupo que trouxe as “midiáticas” UPPs, o Secretário de Segurança Beltrame e a “euforia” que (só na opinião pessoal dele) “tomou conta do Rio nos últimos 2 anos”.
Se formos analisar, nenhum dos grupos satisfaz a uma população que, como definiu o ex-alcaide Cesar Maia de forma “desprezível”, está preocupada somente com o imediato, tamanha a privação na qual se encontra, ou seja, mais de 90% só quer saber se irá comer amanhã. Daí todos os candidatos a reeleição hoje entregarem descaradamente o maior número possível de obras próximo das eleições, principalmente asfaltamento, coisa marcante, segundo pesquisas, e durante o mandato empurrar com a barriga. Revitalizar a economia? Nem pensar. O negócio é feudalizar o Rio para eternizar suas oligarquias.
É de uma sordidez inadmissível fazer pesquisas eleitorais, descobrir os “anseios populares” e prometer sem poder cumprir, na maior cara de pau, apoiado em campanhas bilionárias financiadas por grupos do toma lá da cá. Repare que os ex-governantes estão muito bem economicamente, enquanto nossa economia não pode estar pior, com uma arrecadação de ICMS em 2011 menor do que 1995. O que mudou no município, a não ser a diminuição dos juros de 9 para 6% da dívida pública com a União, via o maior empréstimo do mundo do Banco Mundial e que viabilizou uma verba anual de 360 anunciada como sendo de 500 milhões de reais, toda comprometida com projetos carimbados com o BM? Sendo que ela será aplicada em projetos sociais que não darão retorno nenhum e nem certeza de que serão bem gastas.
