Foi com essas mulheres, que completaram a alfabetização junto com a nova geração de filhos e sobrinhos que chegava, que ela teve sua formação - e aprendeu a lição de fortaleza.
Não a fortaleza folclórica que por vezes se atribui a "um povo negro que não sente dor, que está sempre a cantar, que tem uma alegria já por herança", critica, e sim a fortaleza da resiliência "que nos agrega" e "que nos salva".
A escritora mineira, que hoje vive em Macaé (RJ), está prestes e embarcar para Paris, onde vai lançar a edição francesa do livro Insubmissas Lágrimas de Mulheres e participar de mesas literárias no Salão do Livro de Paris.
Em conversa com a BBC Brasil, Conceição questiona as dinâmicas que tornam a ascensão social e profissional tão difícil para mulheres e para negros no Brasil.
Leia os principais trechos da entrevista:
BBC Brasil - Depois de 130 anos da abolição da escravatura, como a mulher negra é vista hoje no Brasil?
Conceição Evaristo - Acho que são 130 anos de uma abolição inconclusa. Inconclusa porque nós - a população pobre em geral, e mais ainda as mulheres negras - ainda não conquistamos uma cidadania plena no que diz respeito a habitação, emprego, condições de vida. A sociedade brasileira ainda tem essa dívida histórica para com a população negra, e mais ainda para com as mulheres negras.
As mulheres já enfrentam interdições por questões de gênero. No caso das negras, as interdições estão fundamentadas na questão de gênero e na questão de raça. Para as mulheres negras, a conquista de determinados direitos e de determinados espaços é muito mais difícil.
'A gente reconhece a fortaleza que criamos na resiliência, que nos agrega, que nos salva. Sem essa fortaleza, sem a criação de táticas de sobrevivência, a nossa ancestralidade morreria nos próprios porões dos navios (negreiros)' .
BBC Brasil - A senhora levou 20 anos para publicar sua primeira obra. Por que demorou tanto, quais foram os obstáculos?
Conceição Evaristo - A primeira obra que eu escrevi, Becos da Memória, ficou guardada durante 20 anos. Eu mandei para várias editoras. O texto literário, no caso da autoria negra, carrega a nossa subjetividade na própria narrativa. A temática negra, principalmente quando trabalha com identidade negra, não é muito bem aceita.
Quando a temática negra trata do folclore, ou não é tão reivindicativa, aí interessa. Mas quando questiona as próprias relações raciais no Brasil, é quase um tema interdito. Principalmente se isso é colocado pela própria autoria negra.
Até então, os brancos podiam dizer a nosso respeito. Mas quando a gente se apropria do nosso discurso, da nossa história, isso é motivo de interdição.
BBC Brasil - A senhora usa a expressão "escrevivências" para falar na sua escrita, feita a partir de suas vivências como mulher, negra, de origem pobre. Acha que está aí a força de sua obra?
Conceição Evaristo - Não é que o homem não possa escrever sobre a mulher. Pode. Não é que o branco não possa escrever sobre o negro. Pode.
Mas quando esse discurso falado ou escrito carrega a nossa subjetividade, justamente porque ele nasce num lugar social, num lugar de gênero, num lugar racial diferente, ele traz determinadas peculiaridades que aquele que escreve de fora, por mais que seja competente do ponto de vista intelectual ou emocional, não vai trazer. Ele não traz uma carga de quem escreve de dentro.
Aqui não tem nenhum juízo de valor, de querer dizer qual texto é mais bonito. Não é isso não. Mas trata-se de apontar esse local diferente onde esse discurso nasce e é desenvolvido.
BBC Brasil - Mas a senhora fala na importância de escrever com uma voz feminina, afro-brasileira, nascida de dentro. Ainda há pouco espaço para essa voz no Brasil, diante das perspectivas de uma elite que descende da colonização europeia?
Evaristo - Há uma voz hegemônica que quer ser paradigma de tudo. Mas isso não significa que o povo não criou, ou não cria, as suas vozes, as suas utopias. Essas vozes, essas utopias, essas formas de reação, essas táticas, elas sempre existiram. Se não existissem, a herança africana que marca a nacionalidade brasileira não existiria, já teria sucumbido.
Na música, na poesia, na literatura, nas religiões afro-brasileiras, em sindicatos, em associações de moradores, essas vozes sempre se pronunciaram.
Mas por mais que uma voz hegemônica queira comandar, a água escapole entre os dedos. Você não segura. Não retém a força da água. Então o povo também encontra maneiras de se afirmar, de falar, de dizer. "Em todas as áreas, os poucos negros que conseguem uma ascensão social são vistos como histórias de exceção" | Foto: Joyce Fonseca
BBC Brasil - A senhora fala muitos sobre como cresceu cercada de mulheres em uma casa muito humilde. Como isso a marcou como mulher e escritora?
Evaristo - Foram essas mulheres que me formaram. A presença de homens na família foi mais rara. Embora eu tenha aprendido minhas primeiras noções de negritude com um tio, irmão da minha mãe.
Aprendi a lição de fortaleza com essas mulheres, que não tinham formação escolar completa e aprofundaram o processo de alfabetização na medida em que se tornaram responsáveis por criar uma geração de filhos e sobrinhos.
Não falo da "fortaleza" incutida no imaginário que se tem de um povo negro que não sente dor, que está sempre a cantar, que tem uma alegria já por herança... Esse imaginário não nos reconhece como seres humanos, com alegrias, tristezas, solidão. Esse imaginário retira nossa vulnerabilidade humana. Essa ideia de fortaleza a gente não reconhece.
A gente reconhece a fortaleza que criamos na resiliência, que nos agrega, que nos salva. Sem essa fortaleza, sem a criação de táticas de sobrevivência, a nossa ancestralidade morreria nos próprios porões dos navios (negreiros).
BBC Brasil - O ano passado foi consagrador, com sua participação da Flip (a Festa Literária Internacional de Paraty) e as exposições que o Itaú Cultural promoveu sobre a sua obra, em São Paulo e no Complexo da Maré, no Rio. Como foi ver a sua obra levada para dentro da favela?
Evaristo - Teve uma importância tremenda. Eu saí de um polo ao outro. Da avenida Paulista (onde fica a sede do Itaú Cultural em São Paulo), com matéria no jornal dizendo que eu estava no coração financeiro do Brasil, para a Maré.
Foi muito simbólico, porque é como se me devolvessem ao lugar que é meu. Ter a oportunidade de estar com crianças e mulheres da periferia, mulheres pobres, que é uma experiência minha... E poder despertar sua curiosidade, seu desejo, mostrar que determinadas competências não são só das classes privilegiadas, que nós temos determinadas competências como qualquer ser humano pode ter.
Ano passado realmente foi muito fértil para mim. Mas faço questão de afirmar, sem pestanejar: o que me fez não é a mídia. Meu primeiro lugar de recepção foi o movimento social negro. Foi a militância de homens e mulheres que me levou para as escolas, para os saraus, para a pesquisa.
Direito de imagem AFP Cartaz faz referência à campanha #MeToo; para escritora brasileira, é preciso que luta vá além dos discursos em redes sociais



