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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Escola troca formação de cidadãos pela capacitação de clientes, diz antropóloga. Via Folha de São Paulo





O Estado perdeu sua capacidade de dar coesão às instituições modernas e o mercado amplia sua abrangência. A educação já não prioriza a formação de cidadãos, mas quer oferecer serviços a clientes, consumidores. A escola como conhecemos pode desaparecer.
A visão é da antropóloga argentina Paula Sibilia, 45, que lança amanhã no Rio o livro "Redes ou Paredes - A Escola em Tempos de Dispersão" (Contraponto). No ensaio ela faz um cáustico diagnóstico do ensino e avalia o impacto das mídias eletrônicas no aprendizado num mundo cada vez mais dispersivo e refratário à reflexão.
Para ela, "na escola deveríamos aprender a pensar", resume.
Nesta entrevista, concedida por correio eletrônico, ela fala de temas variados, como o uso de câmaras nas salas de aula, alunos com hiperatividade e ensino remoto.
Sibilia escreveu também de "O homem Pós-orgânico: Corpo, Subjetividade e Tecnologias Digitais" (Relume Dumará, 2002, com reedição atualizada pela Contraponto, no prelo, 2012) e "O Show do Eu: A Intimidade como Espetáculo" (Nova Fronteira, 2008). Seu próximo livro tratará do fenômeno do culto ao corpo. Realiza um pós-doutorado em torno desse assunto na Universidade de Paris 8, na França.
*
Folha - Por que a sra. se interessou em escrever sobre escola não sendo da área de pedagogia?
Paula Sibilia - Minha área de trabalho específica não é a pedagogia nem a educação. Contudo, me interessei pela crise da escola como um fenômeno contemporâneo, muito relacionado com outros que também venho investigando.
Uma aposta básica percorre todos meus livros. Essa hipótese é a seguinte. Estaria se produzindo atualmente uma mudança histórica nos modos de construirmos o que somos --ou seja, isso que chamamos de subjetividades--, assim como nas maneiras de nos relacionarmos com os demais e com o mundo.
Transformações como essas ocorrem constantemente. Não é a mesma coisa ser alguém agora --no mundo globalizado de início do século 21-- que no século 19, por exemplo, ou então na Idade Média, na Grécia clássica ou em outras culturas não ocidentais. Tudo isso tem uma relação profunda com a cultura na qual estamos imersos.
O que mais me interessa deste processo que está acontecendo agora é uma mutação com relação às formas modernas de ser e estar no mundo. Aquelas que configuraram a subjetividade que teve seu apogeu nos séculos 19 e 20, protagonizando a era burguesa e industrial. Estaria ocorrendo agora um deslocamento no eixo em torno ao qual se organiza o que somos. Em que sentido? Se a confluência oitocentista entre o racionalismo ilustrado e os ímpetos românticos situou esse centro numa entidade misteriosa e oculta conhecida como interioridade --a alma, o espírito, o inconsciente, inclusive a mente incorpórea--, onde se acreditava que residia a essência de cada um, todo esse relato está perdendo força ultimamente, está se modificando para dar lugar a outras configurações.
No final do século 20 e início do 21, um complexo movimento histórico, que envolve fatores sócio-culturais, políticos, econômicos e também muitas mudanças no plano dos valores e da moral, vem deslocando esse eixo da subjetividade. Como resultado dessas transformações, já não nos construímos prioritariamente ao redor daquele centro considerado interior. Ao contrário, e cada vez mais, a definição de quem é cada um se ancora naquilo que se vê. Com isso me refiro não apenas ao aspecto físico, à imagem pessoal e tudo aquilo que costumava ser considerado vãs aparências, diante da contundência da beleza interior, mas também ao comportamento visível. Ou seja, tudo isso que agora denominamos a imagem e a performance de cada um, que se supõe que deveriam ser constantemente aprimoradas e expostas ao olhar alheio, num presente vertiginoso que costuma engolir tanto o passado como o futuro.
Por tais motivos, não surpreende que hoje proliferem as redes sociais, com seus perfis e sua infinidade de imagens e pequenos relatos pessoais que circulam pelas telas do mundo. Assim como os reality-shows e os programas de fofocas e confissões na televisão, ou as câmeras digitais que permitem fotografar todos os instantes da vida cotidiana e mostrá-los de imediato seguindo os códigos estéticos do espetáculo. Ao mesmo tempo, entra em declínio um conjunto de ferramentas e atributos que caracterizavam o antiquado homo psycologicus, aquele que brilhou no século 19 e início do 20: desde o diário íntimo até o pudor que envolvia a intimidade, por exemplo.
Considerando todo esse pano de fundo, neste livro mais recente, sugiro que talvez a escola faça parte desse pacote que está sendo descartado pela gradativa expansão dos novos modos de vida. Entra em crise, assim, não só a estrutura arquitetônica e funcional do velho aparato escolar, mas também se metamorfoseiam as subjetividades e os corpos das crianças (e dos adultos) que costumavam povoar esses espaços. Assim como os valores e as regras que os pautavam, as premissas em que se baseavam e as ambições que projetavam. Eis um dos principais motivos, portanto, daquilo que chamamos a crise da escola no século 21, de acordo com a análise que apresento no livro.

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