Os personagens referenciados no filme de Woody Allen
Texto de Sérgio Mayr
Gil Pender (Owen Wilson) e Inez (Rachel McAdams), sua noiva, passam uma temporada em Paris, acompanhados dos pais desta, John (Kurt Fuller) e Helen (Mimi Kennedy). O futuro sogro, com compromissos de negócios na capital francesa, é um republicano empedernido, adepto da invasão do Iraque levada a cabo por George W. Bush e seus ideólogos “neocon” e com aversão à neutralidade francesa em relação a essa iniciativa bélica desastrosa, além de partidário da organização de ultradireita denominada “Tea Party”, voltada ao resgate dos valores inaugurais do país e em repúdio às necessárias reformas (econômicas, sociais, de saúde pública, etc.) capitaneadas pelo governo de Barack Obama.
Woody Allen pinta o retrato preciso de uma afluente e emblemática família americana, com todos os seus membros, inclusive a noiva, quase que completamente desprovidos de inclinação artística ou intelectual, com mãe e filha sempre voltadas ao interesse fútil pela ida às compras: o que importa é o que tem valor material. O cineasta não perde a chance de fustigar a tacanha direita americana e o fundamentalismo cristão com frases mordazes em alguns diálogos.
O filme, ao som e “swing” da música inspirada no jazz cigano do belga Django Reinhardt (1910/1953), composta e executada pelo francês Stephane Wrembel (a música “Bistro Fada”, ausente dos créditos) e recorrente nos 94 minutos da obra, abre com várias cenas de locais fundamentais de Paris que acalentam as lembranças daqueles que conhecem e adoram a magia da cidade, com ou sem chuva. A fita apresenta um matiz autobiográfico, já que o próprio Woody Allen, no começo da carreira, quando escrevia roteiros para comédias, passara uma temporada na inigualável cidade da região de Île-de-France, com aspirações literárias: Gil Pender/Owen Wilson é o seu “alter ego”, não somente no pendor literário, mas também no que concerne aos trejeitos e à maneira de falar; aliás, assim como Larry David em “Tudo Pode Dar Certo”, de 2009, e vários outros atores já dirigidos por Allen em filmes sem o próprio atuando. Owen Wilson em uma atuação no ponto certo, sem exageros, sem histrionismo: em uma só palavra, ótima.
Paul (Michael Sheen, excelente na afetação) é o amigo pedante de Inez encontrado por acaso, com a respectiva namorada, em um dos bistrôs da cidade. Em uma visita à notória escultura em bronze, “O Pensador”, de Auguste Rodin (1840/1917), a guia turística interpretada por Carla Bruni percebe o padrão pernóstico das falas de Paul e o contesta em uma afirmação: Camille Claudel (1864/1943), assistente e aprendiz de Rodin e também talentosa escultora que vivera à sombra do mestre, teve somente um tumultuado caso amoroso com este, sendo que a paixão não plenamente correspondida a levaria à loucura; Rose Beuret era a companheira “oficial” de Rodin. Depois, empreendem um passeio pelos jardins do palácio de Versailles, em que Paul, ostensiva e impiedosamente, dispara toda sua erudição exibicionista (os cães também costumam marcar território, mas de forma distinta) para o deleite das mulheres presentes, inclusive Inez; contudo, para a indisfarçável irritação de Gil.
Inez, mais receptiva ao charme pseudointelectual de Paul, sempre demonstra um acentuado desinteresse pelo que Gil fala ou deseja e acha uma insensatez caminhar nas ruas de Paris sob chuva, algo que, pelo contrário, encanta Gil.