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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

NÃO HABITE CORAÇÕES VAZIOS, VIAJE!


Como ser inteira depois que a partida nos (re)parte ao meio.

A ideia é simples, não acampe em terrenos vazios, não plante em solos inférteis e não vista as velhas roupas que não lhe cabem mais. Pois bem, seria mesmo extremamente simples, se não fosse protagonista de toda essa história.

Imagine que você, depois de caminhar milhas e milhas sozinha - com bagagens transbordantes de medos, lembranças, desejos e sonhos - decidiu parar para rever o trajeto. Você já caminhava dias a fio e lidava bravamente com toda e qualquer barreira quando - por descuido ou cansaço - achou que seria bom descansar a sombra de uma árvore, dessas que, com uma copa majestosa e um tronco poderoso, transforma paisagens.

Com alguma resistência - e uma série de questionamentos - você parou e então provou a sensação de soltar os cadarços das botas pesadas que já mal lhe cabiam os pés. Desfez as malas, tirou o peso das costas, botou as toalhas no sol e aconchegou-se - ainda receosa - sobre aquele lugar novo e confortável.

A princípio, agiu com cautela e suspeita. Afinal, depois de tanto tempo caminhando só, você cria fortalezas em crenças confortáveis. Depois, já fazendo morada naquela sombra, passou a perceber o quanto desejou estar ali e duvidou de como foi feliz na sua vida de andante sem um par.

Entusiasmada, você ergueu paredes, pintou-as com sua cor predileta, fez cercas para o jardim e cortinas para as janelas. Você teceu uma colcha inteira de retalhos, preparou o café, preencheu a estante com bibelôs e colocou uma toalha branca feita de crochê na mesinha de centro. Na sua estante, os discos e livros que sempre desejou ouvir e apreciar da poltrona do canto da sala. No corredor, todas as fotografias e lembranças que podia carregar. Na dispensa, nos armários e nas gavetas, amor. Na cama, desejo. No seu colo, carinho. Nas suas mãos, dedicação. No seu olhar, cuidado.

Você, depois de decidir que o amor que tinha se limitava a uma porção insignificante que mal dava conta de você, foi capaz de vê-lo crescer - dia após dia - a cada movimento sutil daquele florescer ao lado do outro.

Você amou. Amou como desejam os amantes do mundo e como sonham as crianças quando desenham seu par. Você foi capaz de sentir que havia vida além de você e o quão lindo era perceber o mundo a partir do olhar alheio. Você foi feliz. Tão feliz, que custou perceber a ausência do outro. Demorou para que reparasse que, enquanto colocava naftalinas nas blusas de frio do armário, ele ainda carregava sua própria bagagem nas costas.

Você se despiu. Ele não. Você se abriu e ele permaneceu fechado - com trancas nas portas e grades nas janelas - num jogo doloroso, injusto e devastador. Que dureza encontrar-se só num caminho a dois.

As flores, as almofadas coloridas e, até os quadros pintados por você e colocados -cuidadosamente - na parede, já não alegravam o lar. Você bem que tentou mudar os móveis de lugar, alterar a cor da sacada, plantar girassóis. Não teve jeito. Você dava, não recebia. Esperava e continuava a esperar todos os dias. O amor partiu daquela casa e você ficou ali, mergulhada no vazio que só faz transbordar o sentir como navalha que flagela – demoradamente – a carne.

Você, a duras penas, teve que recolher do chão, que outrora era macio – mas agora frio e duro - cada pedacinho seu que tinha se estilhaçado sobre o não amar. Teve que reaver as malas do porão, embrulhar todos os bibelôs num jornal e forrar a cama com lençóis neutros e cinzas pela última vez. Você deixou de aguar o jardim, lavar as persianas e, depois de dias e dias de lamento, colocou cadeados nas entradas e percebeu que era hora de abandonar aquele espaço e seguir viagem.

Você se demorou no sofrer e padeceu intensamente com o partir, mas - sabendo o quanto uma andante solitária pode suportar - soube fazer as malas, dizer adeus a sombra da árvore e, com uma bagagem abarrotada de experiências novas, continuar.

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