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terça-feira, 1 de julho de 2014

Seis Obras de Arte Que o Vão Ajudar a Viver Melhor!


Por Alain de Botton


É natural que pensemos a música como o melhor meio terapêutico. Na maioria das vezes, somos DJ´s, sem treino, das nossas próprias almas, ágeis a seleccionar as músicas que vão alterar o nosso estado de espírito para melhor. Mas poucos de nós pensariam em virar-se para a arte visual para nos ajudar nestas situações, poucos de nós relacionamos a pintura e a escultura como a nossa vida emocional.


Não temos playlists das nossas imagens favoritas nos nossos iPads. Não temos galerias privadas nos nossos computadores. O custo e prestígio da arte levam-nos a vê-la como algo exclusivo, algo que nos faz pensar que não temos o que é preciso para poder apreciá-la. E a forma como as galerias expõem a arte, não é suficientemente convidativa para podermos entrar e ver se nos identificamos com as obras.


Nas solenes galerias dos museus, que é onde apanhamos pistas sobre como nos devemos comportar em relação à arte, muitos de nós ficamos – dentro dos nossos corações – perdidos. Olhamos para as legendas e obedientemente aprendemos informação básica sobre o quadro, a sua origem e quem o pintou, e por vezes uma expressão idealizada para a tal imagem. Mas será que isso realmente nos importa? A arte deveria servir para quê?


Esta última questão, durante muitos anos, foi sempre vulgar, ou simplesmente irrespondível. E isto é inaceitável. Se a arte merece o majestoso prestígio que recebe, então deveria ser fácil saber o propósito da sua existência. Nós acreditamos que a arte é, em última análise, um meio terapêutico, tal como a música. Ela, também é um meio através do qual podemos recuperar certas coisas como a esperança, dignificar o sofrimento, desenvolver empatia, rir, admirar, estimular a sensação de comunicação com os outros e reconquistar a sensação de justiça e do idealismo político.


Mas, para que a arte possa fazer estas coisas por nós, nós temos que nos aproximar dela da maneira certa. Precisamos de a interpretar, não de acordo com os critérios da arte histórica, por muito interessantes que esses critérios sejam, mas de acordo com um método psicológico que nos convide a mergulhar nas profudenzas das obras artísticas. Como é que se faz um caminho terapêutico psicologico da leitura da arte? Uma selecção de obras artistícas sugerem um metódo…




Esperança




Ponte sobre uma Lagoa de Lírios de Água, Claude Monet, 1899


Os quadros de Monet são uns dos mais populares no Museu de Arte Metropolitana em Nova Iorque. Isto é preocupante para muitas pessoas de classes sofisticadas, que tomam o gosto da “beleza” como um sintoma de sentimentalismo, ou simplesmente um sintoma de estupidez. A preocupação é que o gosto por arte deste género é ilusório: quem gosta de lindos jardins está em perigo de se esquecer das condições reais da vida, cujas incluem a guerra, doença, problemas políticos e a imoralidade. As pessoas precisam constantemente de arte para se relembrar desse tipo de condições, e as pessoas mais sofisticadas propõem sempre obras que iludem as pessoas e as afastam da percepção do que a vida é realmente.


Mas isto é para localizar o problema no sitío errado. Para a maior parte de nós, o maior risco que enfrentamos não é a auto-satisfação; pois poucos de nós são propensos a esquecer os males da existência. O verdadeiro risco é o de nos afundarmos em fúria, depressão, desespero; o perigo é de podermos perder a esperança no projecto da humanidade.


É este tipo de desespero que a arte está apta para corrigir, e isto explica a fundamentação popular do entusiamo pelo “belo”. Flores na Primavera, céus azuis, crianças a correr na praia… estes são alguns dos símbolos visuais que representam a esperança. A alegria é um objectivo e a esperança é algo a louvar.



Cuidado




Vidro Veneziano do Século XIV


As oficinas de vidro de Veneza tornaram-se famosas no período medieval por produzirem os mais delicados e elaborados vidros transparentes que a humanidade alguma vez viu. Na maioria das vezes, nós temos que ser fortes, não podemos deixar que a nossa fraligidade venha ao de cima. Nós sabemos disto desde criança, temos um pedaço de fragilidade em nós, mas mantemo-lo sempre escondido. No entanto o vidro veneziano não se desculpa pela sua fraqueza, mas sim admite a sua delicadeza, faz com que o mundo perceba que este vidro pode facilmente ser danificado.


O vidro não é frágil por deficiência ou por acidente. Não é que o seu criador estivesse a tentar criar um vidro duro e resistente e em seguida – estupidamente – acabasse por ser algo que uma criança conseguisse partir facilmente. É frágil e fácil de danificar como consequência pela busca de um vidro requintado, que acolhesse a luz do sol e a luz das velas nas suas profundezas. O vidro consegue ter maravilhosos efeitos, mas o preço é a sua fragilidade.


Sendo assim, é dever da civilização permitir que a delicadeza humana prospere, para se criarem ambientes onde é aceitável ser frágil. É óbvio que o vidro pode esmagar-se, é por isso que usamos os dedos com ternura e cuidado. É tudo isto um conto moral sobre delicadeza, contado através de um recipiente para bebidas. Isto é treinar para os momentos mais importantes das nossas vidas, quando o ser-se moderado fizer parte das nossas realidades, pois ser maduro é ter consciência do efeito das nossas forças sobre os outros. Executivos, estejam a vontade para tirar alguns apontamentos.



Empatia



O Crepúsculo da Vida, Sydney Tully, 1894


É difícil, preocuparmo-nos com as outras pessoas, especialmente com as pessoas mais velhas. No retrato de Sydney Tully, está uma senhora de idade, curvada e pensativa contra um fundo luminoso. Estamos a ser encorajados a olhar por muito mais tempo do que geralmente olhamos, ela costumava ser forte e assertiva, ela teve amores, ela decidiu cuidadosamente, sentar-se com uma emoção tranquila no final da tarde.


Agora, é difícil ser amada e ela sabe disso. Fica irritada e vai-se embora. Mas ela precisa de outras pessoas para cuidar dela. Qualquer pessoa pode acabar no lugar dela, e há momentos em que um monte de pessoas – em qualquer ciclo de vida – são mais difíceis de amar ou admirar. O amor está ligado, na maioria das vezes, à admiração: nós amamos porque achamos a pessoa excitante e única. Mas também há outro aspecto para amar, quando somos comovidos pela necessidade do outro, é quando floresce a generosidade.


E Tully é generoso para a sua amada, o pintor olha com ternura para a cara da senhora e questiona-se, quem ela realmente é?



Apreciação



Um Idílio: Daphnis and Chloe, Nicola Pisano, 1500-01


No amor genuino de Daphnis e Chloe, Pisano envoca o principio do amor, o momento em que a graça e o carinho do outro nos é intensamente apresentado. Daphnis vê Chloe como uma preciosidade, ele nem se atreve a tocá-la. Toda a sua dedicação, a sua honra e as suas esperanças para o futuro lhe são vívidas. Ele quer merecê-la, ele não sabe se ela o vai amar, e esta dúvida intensifica a sua delicadeza.


Aos seus olhos, ela não pode ser garantida. Visto por alguém numa relação de longa duração, quando ambos se tornaram um hábito pois já são completamente familiares, surge esta imagem com particular necessidade de acordar as sensações esquecidas de gratidão e admiração pela pessoa que temos ao nosso lado.




Relacionamentos




A Agonia na Cozinha, Jessica Todd Harper, 2012


Se prestarmos atenção, hoje em dia estamos cercados por imagens que representam as relações de hoje – muitas são decepcionantes e dolorosas para as nossas próprias chances de nos contentarmos com a outra pessoa. As pessoas raramente falam com sinceridade sobre o que se passa dentro dos seus relacionamentos.


Por de trás do silêncio, está uma necessidade de manter as aparências sobre o progresso dos desafios da vida adulta: a capacidade de ter sucesso em ser feliz com outra pessoa.
Nós precisamos de obras de arte que nos mostrem que os nossos problemas são ambos tristes e normais. Não precisamos do diametro oposto das imagens fantasiosas de Hollywood. Extremos sobre a violência doméstica são raros, mas dia após dia, as batalhas são universais, embora não sejam representadas e vistas.


Na imagem de Jessica, um casal que planeava ter uma bela tarde, já não a vai ter, porque correu tudo mal. Uma pessoa sente-se furiosa e a outra chora. No entanto, podem ser boas pessoas, não estamos aqui para os condenar. Eles são afáveis, mesmo estando no meio de um problema intenso de se resolver.


A arte pode funcionar como um depósito privado de verdades, que são demasiado peculiares e inaceitáveis para serem partilhadas com pessoas que conhecemos.



Consumismo




Cozinheira com Natureza Morta de Vegetais e Frutas, Nathaniel Bacon, 1620


A ideia do consumismo como sendo algo mau, é uma praga que venceu o mundo moderno. No entanto, o consumismo é retratado no seu melhor pelo amor aos frutos da terra, deliciando-se com a ingenuidade humana e devido à apreciação das vastas conquistas do comércio organizado. Esta pintura leva-nos a viajar no tempo, para as alturas em que a abundância era algo novo que não devia ser levado por garantido.


Nós temos tanto medo da ganância, que nos esquecemos o quão honroso pode ser o amor pelas coisas materiais. Em 1620, a homenagem podia ser paga através da nobreza de trabalhar e da nobreza de ser comerciante, algo que a culpa e o tédio tornam menos acessíveis na nossa sociedade hoje em dia. Talvez possamos aprender algumas coisas com esta imagem. Uma boa resposta ao consumismo, não é viver sem melões e uvas, mas sim apreciar o trabalho que temos para poder obtê-las um dia.
Fonte: Editora Chiado

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