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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Rio Doce através do olhar de Rubem Braga e Ziraldo

Triste imagem de novembro de 2015 do Rio Doce.
-x-x-x-

“Barra do Rio Doce”, Rubem Braga, 1949

O homem de binóculo focalizava a bandeirinha que se agitava lá em terra lá em terra, no pontal sul, perto do farol. O próprio comandante estava na roda do leme; e o chefe de máquinas, oficial da Marinha de Guerra aposentado depois de fazer duas guerras, estava no telégrafo das máquinas.

— Que é que a bandeirinha diz?

— Bombordo! Toda a força a bombordo!

O timoneiro obedece — e olhamos em silêncio para a proa. A corrente está fortíssima, e a maré inda está baixa. Em nossa frente o Rio Doce despeja toda sua massa de água cor de lama, de um quilômetro de largura, em um estreito canal. Temos de passá-lo.

— Bombordo!

A proa hesita um instante — e depois, lenta, implacavelmente, vai-se voltando para boreste. Os mil cavalos de nossos dois motores se esbofam à toa.

— Para trás!

— ...

— Marca assim!

Avançamos outra vez, penosamente. “A proa é esta!” Pode ser algum espadarte que deseje ir desovar na lagoa de Juparanã; quando a nós vamos em cima de um banco de areia. Bonito. Ouvimos aquele ruído triste do casco na areia. As ondas assanhadas pelo nordeste ensaiam abordagem perto da proa. O chefe das máquinas está em silêncio mascando seu toco de charuto. O caboclo que é considerado prático na barra adota esta atitude não muito eficiente, mas em todo caso justificável no momento: coça a cabeça. A bandeirinha, lá longe, manda recados muito salutares, mas inócuos, como um sargento que berrasse ordens para um recruta paralítico.

“O menino do Rio Doce”, Ziraldo, 1996

Rio que nasce doce na gorda barriga da montanha na praia (do lado de cá). O menino tinha certeza de que havia nascido no dia em que viu o rio. Na sua memória, não havia nada antes daquele dia. O menino amou o rio pois acreditou que o rio também havia nascido no dia em que ele o viu.

“O lavrador”, Rubem Braga, 1954

Esse homem deve ser de minha idade — mas sabe muito mais coisas. Era colono em terras mais altas, se aborreceu com o fazendeiro, chegou aqui ao Rio Doce quando ainda se podia requerer duas colônias de cinco alqueires “na beira da água grande” quase de graça. Brocou a mata com foice, depois derrubou, queimou, plantou seu café. Explica-me: “Eu trabalho sozinho, mais o menino meu”. (...) No começo ainda não tinha prática de canoa, estava sempre com medo da canoa virar, o menino é que logo se ajeitou com o remo; são quatro horas de remo lagoa adentro. Diz que planta o café a uma distância de dez palmos, sendo a terra seca; sendo fresca, distância de quinze palmos. Para o sustento, plantou cana, taioba, inhame, mandioca, milho, arroz, feijão. Disse que uma vez foi lá um homem do governo e proibiu (“empiribiu”) armar fojos e mundéus, pois “se chegar a cair um cachorro de caçador, eles mete a gente na cadeia e a gente paga o que não possui”. Olho sua cara queimada de sol; parece com a minha, é esse mesmo tipo de feiura triste do interior.

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