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domingo, 22 de novembro de 2015

O RETRATISTA OCULTO




“Há pequenas mudezas cotidianas que mais parece uma parede intransponível. Um átomo indivisível que mantém dentro de si um absoluto dilema. Uma redoma antigravitacional que ilude transeuntes e suas solitárias palavras movediças. Um redemoinho que ao se erguer; jamais modifica qualquer objeto ou muda qualquer questão em curso. Sou um fugitivo de um universo estático, onde as leis da física causam apenas reações diluídas nos elementares movimentos do mover-se. Entretanto, há um momento em especial que me tira da obliteração múltipla e me arremessa em doses cavalares de observações lúdicas quase indecifráveis: O momento no qual atravesso o centro da capital e desenho invisivelmente os semblantes do cotidiano”.

Era peculiar o quanto Cesti chafurdava nas expressões de cada senhor de idade e suas debilitadas rugas. Tinha talento é verdade e continuava a me entorpecer com suas palavras: “Alguns rostos eram como quebradiças montanhas em tempos de seca. Como eram sutis as senhoras pálidas pelo calor moribundo – como se a locomotiva estivesse dando contornos em algum vulcão. Quanta sutileza também na pontiaguda presença – quase licenciosa – dos seios da moça, esses que empurravam polidamente os algodões da blusa, causando, ondulações enigmáticas e outras perscrutações poéticas nos jovens sedentos. Sou como um poeta que guarda os versos sobre a mesa dos pensamentos e os cobre com folhas brancas ansiosas para serem tocadas. Lápis febris sobre a cocha fremente e olhares que descem do ônibus – sem pagar a conta – e dialogam brevemente com algum trabalhador e sua jornada. Alguma menina tentando decorar as tabelas químicas - para a iminente prova da escola – ou algum louco e seu disfarce matinal. Disfarce esse que acabou sendo – por um breve instante – colocado à prova”.



Antônio Cesti terminava o desenho e assinava, com letras trêmulas, no rodapé. A impressão é que assinava quase por acidente. Quase como um pedido de desculpas por tal disparate. Depois, recobrava-se. Limpava o suor e a ponta dos dedos, guardava cuidadosamente as obras para não amassá-las. Descia sempre no mesmo ponto. Nossa última conversa foi muito breve. Porém, antes de se despedir, surpreendeu-me ao entregar-me vários envelopes: “São meus desenhos, guarde, por favor...”. Fiquei sem palavras naquele instante. Cesti desceu, não disse mais nada.



Voltei para casa e abri cada envelope com cuidado. Enquanto vasculhava cada rascunho percebia que Antônio Cesti deu vida a cada anônimo que – assim como ele – vagava em direção a um conhecido destino e isso alimentava seus desenhos como se fosse uma desconhecida alucinação de poeta. Não obstante, para a minha surpresa, em uma bela manhã, tornei-me um personagem deste retratista. “Eu!”

Seus traços conversaram comigo e tentavam delimitar – em linhas tênues - os comboios dos meus pensamentos desaparecidos. Antônio Cesti parecia ler cada gesto. Linhas que riscavam – como se uma gota penetrasse em alguma plataforma – revelando um ocluso mapa. Jamais mostrei para alguém os meus retratos, era intrínseco. Além do mais, revelava a minha angústia que foi a angústia dele ao me retratar: Quem sou além daquilo que se move todos os dias; além do café; do cotidiano; da volta para casa, da razão e do tempo? Quem, em algum lugar do percurso.

Cesti nunca me disse onde morava. Jamais nos encontramos novamente. Não obstante, qual razão para deixar sua arte sob meus cuidados? Tempos depois, por um acaso fúnebre, fiquei sabendo que morrera, estava doente há tempos. Pensei em fazer uma exposição com suas obras. Pensei em guardá-las para sempre. Antônio Cesti era um retratista oculto, gostava de se esconder nas entrelinhas dos traços da vida.

Então passei a observar cada cena corriqueira, matinal, banal, com seus olhos. Cada gesto e cada passo. Cada sentido para tudo e os desenhos microscópicos das relações humanas.

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Fotografia | Bill Perlmutter (EUA)



© obvious

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