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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A FACE HERÓICA DO BRASILEIRO SEBASTIÃO SALGADO


publicado em cinema por Juliana Radler


Reflexões sobre o documentário "O Sal da Terra", de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, sobre a vida e a obra do fotógrafo Sebastião Salgado.



A trajetória de vida do fotógrafo Sebastião Salgado é um convite à coragem. É também um excelente motivo para nós brasileiros acostumados a babar ovo de gringo, nos orgulharmos de ter um artista do calibre de Salgado com a nacionalidade verde e amarela. Do ponto de vista humano, ligo a mínima se a pessoa é brasileira, alemã, australiana ou chinesa. O que importa é o ser humano.

Porém, sabemos que um dos nossos piores traços de personalidade cármica coletiva é a baixa auto-estima. Brasileiro acha que tudo o que vem dos Estados Unidos ou da Europa é melhor. Que devemos copiar e seguir uma receita estrangeira. Assim foi desde a colonização. Nunca tivemos um Brasil olhando para seu próprio corpo Nação para ver se a mini saia cabia ou se seria vítima da moda feita para outros moldes. Vivemos de ternos escuros no verão de Manaus, Belém e Rio de Janeiro. O que nos resta é suar em bicas sonhando em voltar para a gaiola refrigerada.

Salgado saiu dessa gaiola. Sua coragem de se lançar em jornadas radicais para mostrar realidades duras e vidas marcadas por guerras e condições injustas lhes deram o título de um dos mais importantes fotógrafos de temática social do mundo contemporâneo. Mundo esse ditado pela imagem, cuja força ultrapassa muitas palavras nestas redes de bits.



Suas vivências na África o marcaram profundamente, como revela o documentário Sal da Terra, dirigido pelo alemão Win Wenders, um fã declarado de Salgado, e por seu filho Juliano Ribeiro Salgado. Narrador do filme, Wenders inicia sua fala dizendo que Sebastião é um homem que realmente “se importa com o ser humano”. Sem sensacionalismo ou pitadas dramáticas desnecessárias, o filme mostra a valentia de Salgado em permanecer em zonas de conflito e acampamentos de refugiados onde a morte era tão presente quanto o ar que respiramos. Epidemias de cólera e de violência massacraram povos inteiros e o fotógrafo esteve ali para mostrar ao mundo a tragédia do Sahel.



Agora que vivenciamos a maior crise humanitária de todos os tempos, com 60 milhões de refugiados em todo o mundo, segundo a ONU, fica revelado ainda mais o caráter sensível e visionário do seu trabalho. Todos os fluxos migratórios decorrentes de guerras, fanatismo religioso, falta de água e perseguições políticas de toda a sorte foram mostradas por Salgado, tanto no sofrido continente africano, como no rico europeu, com a guerra na ex-Iugoslávia. Somente alguém abnegado, que se entrega de corpo e alma ao seu trabalho, pode conquistar tamanha profundidade e beleza. Uma beleza que encontra o simples e que dali não tem mais para onde ir, pois tudo foi atingido.

Seus livros relatam o mundo que vivemos hoje. Seu último trabalho, Gênesis, traz um sopro de esperança ao mostrar paisagens ainda intocadas, onde a natureza, o ser humano e os animais vivem como nos dias da criação. Aliás, com as imagens de Gênesis voltamos a respirar na projeção (do filme e da vida) e ter esperança depois de tantas imagens impactantes de morte e injustiça. E para Salgado foi um novo mundo a explorar, menos focado nas expressões humanas, e mais voltado para a beleza dos animais e das paisagens naturais.

Depois do que viu e viveu no Sahel, na África, Sebastião Salgado se retirou. Seu trabalho havia atingido o ponto máximo. E toda crueldade e barbárie que presenciou e fotografou o deixou abatido e triste. Após esse tempo de recolhimento, veio a ideia de replantar toda a área da fazenda de sua família, onde cresceu na cidade de Aimorés, em Minas Gerais. Seca e árida por muitos anos devido à criação de gado, a fazenda de 709 hectares abriga hoje um dos maiores projetos ambientais privados do Brasil, o Instituto Terra.

A lição do fotógrafo que tornou-se ambientalista é de que onde há floresta, há água. E assim o Instituto investe no plantio de mudas e no viveiro de espécies de Mata Atlântica, contabilizando 4 milhões de mudas cultivadas. Ao lado de sua mulher e parceira de trabalho, Lélia Wanick Salgado, Sebastião vem trabalhando para recuperar a região do Vale do Rio Doce, entre os estados de Minas e Espírito Santo, trazendo o Rio Doce e as florestas de volta à vida .



Win Wenders e Juliano captam poeticamente o espírito de Salgado, mostrando a interação do fotógrafo com as árvores que passou a cultivar e amar. O documentário é um retrato do artista, do fotógrafo e sobretudo do homem corajoso, capaz de mergulhos e mudanças profundas. A todos nós humanos, é inspirador o seu trabalho e seu exemplo de vida. E em especial para nós brasileiros, um motivo verdadeiro de orgulho. Vida longa ao Instituto Terra e que muitos outros “Terras” brotem nesse Brasil de águas e florestas.



© obvious

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