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domingo, 8 de fevereiro de 2015

"A barbárie como sedução"


"Gillian Tett, colunista do "Financial Times", lança uma proposta que parece (ou é) ingênua, mas que tem lá seu fundamento lógico.
Ela sugere que as pessoas parem de acessar, nas redes sociais, os vídeos postados pelo EI (Estado Islâmico) mostrando o assassinato selvagem de seus prisioneiros, seja pela decapitação seja queimando vivo um deles.
Tett apoia-se no antropólogo Frances Larson, da Durham University, estudioso de decapitações (as antigas), para quem "só há vitória nas ações dos assassinos quando nós as assistimos".
É uma tese corrente no mundo acadêmico e jornalístico: o EI filma suas ações violentas não apenas porque é bárbaro, mas porque a barbárie é uma arma de captação de adeptos.
Escreve, por exemplo, Khalil al-Anani, professor-adjunto da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Johns Hopkins University:
"Apesar de seu comportamento brutal e bárbaro, o apoio ao Estado Islâmico está crescendo em toda a região, do Iêmen à Argélia. De fato, é por meio dessa barbárie e agressividade que o EI pode atrair e persuadir apoiadores a somar-se às suas fileiras e a experimentar eles próprios sua audácia como se fosse um jogo de entretenimento".
Vale acrescentar que videogames de uma selvageria inusitada tem um público crescente, o que só faz aumentar a tentação de jogar um jogo semelhante na vida real.
Como diz o antropólogo Larson, "embora as pessoas se horrorizem com as decapitações, elas também são fascinadas por elas".
Um fascínio antigo, aliás, como lembra, no "El País", o escritor Luis Goytisolo: "Ao longo dos mil anos da Idade Média, a queima de bruxas e hereges e demais suplícios públicos foi um espetáculo" que fazia com que "as principais praças públicas de cidades como Paris, Londres ou Madri se convertessem em anfiteatros lotados".
O que o EI está fazendo ao mergulhar em práticas medievais é mudar o tamanho e o alcance do anfiteatro: era uma praça pública limitada a uma cidade, hoje é o mundo todo, conectado virtualmente.
O que torna ingênua, a meu ver, a proposta de Gillian Tett de pararmos de clicar nos vídeos postados pelo EI é o fato de que há uma diferente reação a eles: a maior parte dos espectadores se horroriza (pelo menos espero que se horrorize), mas uma parcela bem menor (espero) fica fascinada e atraída pela barbárie.
Essa parcela é exatamente o público que os terroristas querem atingir, o que tornaria inócua a não visualização pela maioria.
O que é lamentável é que a selvageria fascina quem não é vítima direta dela, no caso jovens ocidentais desorientados.
Nos países muçulmanos, o apoio a atos terroristas cai verticalmente depois de um deles no próprio país, mostra o Centro Pew de Pesquisas.
Na Jordânia, por exemplo, 57% achavam que, às vezes, se justificava o terrorismo até que houve, em 2005, atentados em três hotéis de Amã. Na mais recente pesquisa (2011), só 13% tinham idêntica opinião.
Descobriram, pelo caminho árduo, que terror não é videogame."

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. É autor de obras como 'Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo' e 'O Que é Jornalismo'. Escreve às terças, quintas, sextas e domingos.
Fonte: Folha de São Paulo

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