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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

“A Sangue Frio”, romance de Truman Capote, é uma farsa jornalística?



Truman Capote, escritor americano: o romance “A Sangue Frio” pode ser mais ficcional do que sugeria o autor, o que aumenta seu valor literário


O romance de não-ficção “A Sangue Frio”, de Truman Capote, sustenta-se em pé como literatura? A forma como Capote usa recursos da ficção para alargar o conhecimento da realidade é excepcional e a obra merece sua fama. Mesmo agora, quando põem em dúvida a história do escritor norte-americano, alegando que há dados imprecisos e outros fantasiosos, é possível afirmar que se trata de um grande romance — tão bom que Capote nunca escreveu algo do mesmo porte. Ele não era o Proust que se imaginava ser.

Kevin Helliker publicou reportagem no “Wall Street Journal” sugerindo que Capote, quando os fatos não o ajudavam a imaginar a história, publicava a lenda, a sua lenda. Se se pode dizer assim, o livro apresenta o detetive Alvin Dewey Jr. como herói porque ele era uma das fontes do escritor. Kelliker sustenta que o papel de Dewey foi anabolizado em “A Sangue Frio”.

Segundo Capote, assim que um informante revelou os nomes dos assassinos, o Kansas Bureau of Investigation destacou um agente para verificar a casa onde um dos suspeitos havia morado com os pais. Kelliker diz que a verdade pode ser outra. Documentos que estavam em posse do agente Howard Nye, do KBI, revelam que a polícia demorou cinco dias para visitar a residência — não o fez imediatamente, ao contrário do que sugere Capote. Kelliker afirma que o livro é impreciso e que a imaginação de Capote era mais poderosa do que se pensa. Não deixa de ser curioso que alguns dos críticos do escritor chegaram a sugerir que o romance “A Sangue Frio” — uma tradução fidedigna de um crime e, portanto, um relato jornalístico com as cores da ficção — não se sustentava como ficção. Agora, sabe-se que, se tudo não é ficção, pelo menos boa parte é produto da imaginação de Capote. Tiramos um ponto ou damos um ponto para o escritor? Bem, aprovemos o escritor e, quem sabe, reprovemos o jornalista. Talvez seja a hora de assumir que o livro é mesmo um ro­mance de ficção e não um ro­mance de não-ficção. O que é a realidade contada senão a ficção do que aconteceu. Nem mesmo repórteres profissionais, pouco dados à invenção literária, são capazes de traduzir a realidade tal como é.
A realidade apresentada pelo jornalismo é sempre um recorte, um pedaço da complexidade que é a vida.

O “Wall Street” anota: “Os defensores de Capote assinalam que as regras da literatura de não-ficção, incluídas as notas de pé de página com as fontes, não se firmaram até Capote se tornar pioneiro no gênero”. O comentarista do “El Mundo”, diário espanhol, acrescenta que “a importância de ‘A Sangue Frio’ não radica exatamente no livro, e sim na implacável checagem dos fatos feita pelo jornalista”. A forma de narrar de Capote, contando fatos com recursos literários, influenciou gerações de jornalistas.

Se a história real começa ser posta em dúvida, mas apenas pontualmente, a literatura de “A Sangue Frio” é de qualidade. É até bom que, com a refrega, Capote possa ser apreciado mais como escritor do que como jornalista. Homero, afinal, não é muito diferente.

Fonte:http://www.jornalopcao.com.br/colunas/imprensa/a-sangue-frio-romance-de-truman-capote-e-uma-farsa-jornalistica

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