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quarta-feira, 5 de março de 2014

UM LUGAR CHAMADO SERTÃO



Um lugar chamado Sertão. Que lugar tão belo, místico e violento é esse? Palco de belezas naturais e manchado de sangue. Um lugar que se encontra "Nar Brenha" do Nordeste Brasileiro, citado por diversos escritores da língua portuguesa, entre eles Euclides da Cunha no seu livro Os Sertões. Ser-tão assim Sertão.

Um lugar permeado pelos contrastes, território quase mítico da sociedade brasileira, sendo caracterizado como um semi-deserto com condições bioclimáticas adversas e que mesmo assim abriga centenas de comunidades, este é o Sertão. O Sertão brasileiro é umas das quatro sub-regiões do Nordeste do Brasil, nascido pelo processo de interiorização dos colonizadores portugueses entre os séculos XVI e XVII, através do desenvolvimento da pecuária e do comércio nesta região. O nome “Sertão” tem origem no apelido que os desbravadores colocavam – “Desertão”- e que terminou reduzindo-se a sua designação atual. mapa do nordeste brasileiro O Sertão também tem servido ao longo dos anos como temática recorrente aos escritores da literatura brasileira, fundando uma literatura denominada sertaneja ou sertanista que se encaixa na chamada literatura regionalista, que é caracterizada pela referência a certo espaço geográfico e estereotipia do mesmo. A figura do nordestino sertanejo, as condições áridas do seu espaço e da sua vida, as dificuldades em relação à estiagem, o jogo de poderes políticos em meio a ações ‘’coronelistas’’, a violência e a beleza que envolve as relações afetivas, tudo isto faz parte do imaginário que a maioria das pessoas tem do Sertão, e que não deixa de ser verdade. Sertão da Paraíba por Ricardo Funari Atualmente a realidade sertaneja tem sido aos poucos modificada pelas ações de políticas públicas, embora ainda a desigualdade social e as “secas” nunca deixaram de existir. Muito maiores que os problemas climáticos são as questões que envolvem o poder político nesta região, o que levou ao geólogo Aldo da Cunha Rebouças (1962) dizer: “Constatei que o problema do Nordeste não é de seca, mas de cerca". Dentre uma das grandes obras que retrataram este cenário, expondo a indignação e a luta do povo sertanejo é o livro Os Sertões de Euclides da Cunha, publicado em 1902 após cinco anos do episódio acontecido na localidade de Canudos, cujo desfecho o escritor testemunhou como repórter informativo do jornal O Estado de São Paulo. Prisioneiros da Guerra de Canudos - Flávio de Barros, 1897 Arraial de Canudos foi palco de um momento sangrento da história brasileira, marcado pela opressão de uma classe mais baixa pelo poderio do exército brasileiro a mando de ricos latifundiários e dos governantes da República recentemente proclamada. Sob a organização da figura do religioso/ líder espiritual Antônio Conselheiro, um conjunto de ex-escravos, homens e mulheres sertanejos e cangaçeiros reuniram-se em uma comunidade construída sob bases sustentadas pelas mazelas sociais e uma crença religiosa em comum. Antônio Conselheiro foi retratado como um misto de ‘’louco e santo’’, despertando receio da imprensa, do clero e dos latifundiários pelas ideias revolucionárias e monarquistas. 

 Arraial de Canudos, Os Sertões expõe antes de tudo, o incômodo gerado pelo ambiente no escritor, onde seu olhar se encontrava dividido entre servir como jornalista informativo ou dar vazão a seus conceitos e princípios humanitários frente ao problema social visivelmente exposto, descrevendo a terra, o homem e a luta do grupo de resistência contra o exército. Os sertanejos resistiram bravamente a três expedições lideradas por diferentes comandantes do exército e da polícia local, mas na quarta expedição que se iniciou em abril de 1897 até outubro do mesmo ano, os sertanejos não mais conseguiram sair vitoriosos frente a inúmeras tropas fortemente armadas. Imagem do livro "Sertão sem Fim", de Araquém Alcântara O líder político e espiritual, Antônio Conselheiro, foi morto e teve sua cabeça decepada. Os militantes que não foram mortos em confronto foram mortos por degolamento, e o Arraial de Canudos foi inteiramente queimado pelas tropas. Aproximadamente foram 25 mil moradores de Canudos que foram dizimados, manchando de sangue novamente o chão do nordeste brasileiro. A brutalidade presente na leitura deste momento histórico é tão marcante para ilustrar a criação da fantasia que permeia o espaço nordestino, quanto à frase dita pelo personagem Riobaldo no livro Grande Sertão: Veredas (1956) de Guimarães Rosa, que é: “Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera”. Missa do Vaqueiro de Serrita, no Sertão de Pernambuco



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