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quarta-feira, 5 de março de 2014

OS PROVÉRBIOS DE GUIMARÃES


João Guimarães Rosa nasceu para aprender em 1908 e ficou encantado em 1967. E a gente fica aqui, sendo depois de ter...



Conheci Guimarães Rosa cedo, mas só fui lê-lo tardiamente. Sim, eu me arrependo disso. O vestibular da Universidade de Pernambuco me obrigou a ler o compêndio "Primeiras Estórias", e desde então eu não sei mais falar de grandes escritores sem citar este incrível escritor mineiro.

Alguns escritores nos encantam por quanto se mostram altos e distantes e inacessíveis, outros nos levam ao céu por se mostrarem próximos amigos. Guimarães certamente está no último grupo. Sua escrita quase falada, sua linguagem que parece improvisada, mas guarda a mais sofisticada elaboração de ideias.

A genialidade de Guimarães Rosa revela-se exatamente nessa aparente simplicidade que esconde uma rica complexidade e uma trança de longas e variadas ideias acerca da língua, das palavras e das filosofias. E esse manto de desleixo reveste também os provérbios que Guimarães pinga em seus contos, e especialmente Grande Sertão: Veredas.



Os aforismos que estão presentes na obra roseana guardam conjecturas mil, selecionei apenas três provérbios de poesia indiscutível para comentar:

1. "Amor? Um pássaro que põe ovos de ferro."

Essas palavras me pegaram desprevenido quando lia Grande Sertão. Parei a leitura e comecei a tentar entender o que é que o gênio nos queria dizer com aquilo. O narrador parece querer dizer que o Amor - essa figura mítica que atravessa os milênios sem ninguém que a viole ou a descubra - seria uma ave, de onde se compreende que o amor seria belo, seria leve, seria livre, que não seria preso ao chão. Apostando na fluidez do amor.

Mas Guimarães surpreende ao dizer que esse pássaro põe ovos de ferro, ou seja, não é uma ave comum nem totalmente fluida, mas o amor teria frutos que permanecem, igualmente seus ovos não são banais, não são posto com facilidade, mas permanecem. Porquanto o amor é, sim, leve e livre, mas seus frutos são pesados e duradouros.

"Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor." (1 Coríntios 13:13)



2. "Viver é negócio muito perigoso"

A ideia desse aforismo é repetida inúmeras vezes durante o livro Grande Sertão: Veredas. O narrador sempre vai relembrando ao longo do romance. Certa vez, ele escrever "Viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida." Parece que a história da vida de Riobaldo serve como prova de que viver é realmente perigoso, viver é estar em constante risco, como um caminho à beira do precipício. O erro e a morte nos acompanham durante toda a vida.

"A história é tão leve quanto a vida do indivíduo, insustentavelmente leve, leve como uma pluma, como uma poeira que voa como uma coisa que vai desaparecer amanhã" (Milan Kundera, em A insustentável leveza do ser)


3. "Todo abismo é navegável a barquinhos de papel"

Esse provérbio de ironia patente é do conto Desenredo. Guimarães parece querer brincar com nossa imaginação. O abismo seria uma imagem para representar os problemas enormes e aparentemente intransponíveis da vida e dos relacionamentos. O barquinho de papel seria a imagem da inocência, da fragilidade e da infância. Ele propõe que todos os problemas podem ser resolvidos ou superados - ou até tolerados - com uma postura mais inocente quanto à vida.

"Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como menino, não entrará nele." (Evangelho segundo Lucas 18:17)



© obvious: Fonte.

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