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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Carta à Emily Dickson





Minha querida Emily,


Sei que me esperavas por estes dias, mas não posso ir como prometi. Não estou bem, tenho acordado sem alma e sem ânimo, os médicos não sabem o que tenho e de verdade que não me podem ajudar porque estou doente nas palavras,sinto que já não sei como escrever.

Tenho tempo e papéis e lápis mas não sei como escrever.

A chuva e o inverno já me são insuportáveis. A umidade ensopa os cadernos, amolece os papéis e faz enrolar os cantos das fichas de cartão em que vou catalogando as coisas do mundo para as escrever depois. Mas depois olho para todas aquelas pequenas notas de vida e não as consigo escrever.


Persegue-me um querer que não consegue. 

Tenho alimentado o gato, feito a sopa, tratado das roupas, mantido as coisas nos lugares.Respiro todas as pequenas ternuras e suporto tudo o resto.
Faço amor, faço as compras, faço as camas,faço parte do mundo e faço de conta que compreendo as pessoas.

Sorrio compostamente, digo que pois que sim, às vezes encolho os ombros também,
mas evito ter muito que dizer.

Enche-me o silêncio e o enfado. Sobretudo enfado.

O mundo invade-me todos os dias e não consigo fechar-lhe as portas. Falta-me a planície e o isolamento. 
Falta-me –sobretudo – a determinação, e trago-me como numa pausa permanente, tão separada
de tudo. Imagino-te desiludida comigo. Assim sentada e muito quieta, com os olhos serenos, que te ficaram para sempre na fotografia a preto e branco que guardo nos teus poemas.
Assim sentada e condescendente a ouvir todas as pequenezas de que te falo.

Às vezes quero ser mais como tu.

Tu que escreves com a consistência que eu só posso reconhecer na chuva que me ensopa os papéis e os cabelos, sem compromissos e sem concessões,podes - por favor - ensinar-me o ofício de escritor,

Diz-me ao menos se também tiveste vontade de descompor tudo.
De arrancar as cortinas só para as ver rasgadas e caídas no chão a ganhar pó e pelos de gato. Uma fúria de empurrar para cima de qualquer outra coisa a falta de sustento que vem e invade tudo. A dúvida e o medo de se poder cair assim- desprendidamente - como a cortina a quem se lhe partiu o varão.

E é que tenho mesmo que escrever,Emily.Sinto que não sei escrever, mas na verdade não sei fazer mais nada.Sem escrever não tenho, simplesmente, para onde ir e estou assim,estupidamente incapaz.
 E o mal não é do inverno ou da chuva ou da umidade. O mal sou eu, compreendes.
Todos os dias, entre as muitas coisas de que faço planos, e as poucas que enganadamente se cumprem, vou mentindo uma,e outra, e outra vez ainda. Ao mundo e a mim, sobre o desgoverno que faço do tempo e que não tem remissão. Do tempo e do papel e dos lápis, que se me confiam sem perguntas e sem reservas, porque nada sabem da realidade e do mau uso que lhes dou.

Vou contando os dias a tresmalhar-se.E não sei o que fazer da solidão que me entra em casa e
se acomoda para ficar, como se ela própria tivesse medo de estar sozinha.
Queria visitar-te, Emily, a sério que sim. Falar contigo com vagar e ouvir-te sem medo e em paz com o que espero de mim,sentar-me na tua frente que é como se fosse na minha frente.

Um dia de paz, finalmente.
Raquel Patriarca

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