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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Teoria e Debate - Coragem de escrever brasileiro


Foto de Aroldo Vieira de Souza.


Como hoje o assunto da invasão das palavras estrangeiras volta a ser discutido, talvez valha a pena evocar a lição de Mário de Andrade e seu esforço de criação de uma expressão literária nacional.


"Não compreendo revoluções com luvas de pelica" 
(Mário de Andrade, em carta a Manuel Bandeira, jan. 1925)

Em "Lundu do escritor difícil", poema de 1928, Mário de Andrade enfatiza o seu esforço de criação de uma expressão literária nacional e as vicissitudes dessa enorme empreitada. O poeta desnuda o preconceito lingüístico de uma cultura que se esmera em aprender estrangeirismos – arraigado sinal de elite intelectual e de poder discriminatório – e desconhece o idioma pátrio, com seu riquíssimo repositório de variações lingüísticas regionais. Sinaliza então: "Você sabe o francês singe/ Mas não sabe o que é guariba?/ - Pois é macaco seu mano,/ Que só sabe o que é da estranja." O poema, pragmático em sua função pedagógica, ainda esboça uma "teoria" da linguagem ao sugerir o amálgama de dicções e vocábulos brasileiros de todas as regiões, empreendendo assim o alargamento de possibilidades literárias no uso da língua: "gaúcho maranhense/ que pára no Mato Grosso". A imagem que o poema elabora para indicar essa junção inusitada é a "sopa de caruru". Se Mário de Andrade refere-se ao caruru, vegetal comestível, estende o olho para uma planta que vinga de Norte a Sul do Brasil. Se, em outra direção, vislumbra a analogia com a culinária afro-brasileira, pensando no prato que mistura quiabo, caldo de peixe, camarão seco, amendoim, farinha de mandioca etc. fornece, ainda, a medida do caos temperado pelo escritor modernista no caldeirão informe da língua brasileira.

Na década de 20, a "língua brasileira" inseria-se em uma ordem de questionamento mais ampla, a do nacionalismo. A determinação da identidade brasileira passava pela caracterização de um projeto artístico que visava a avaliação crítica das idéias importadas, a busca das raízes culturais e, a partir disso, a projeção de um núcleo diferenciador civilizatório "no concerto das nações". A universalidade através do traço que "singulariza e individualiza" o Brasil transformou-se em bordão alardeado por Mário de Andrade em jornal e cartas, desde 1924. Entretanto, essa definição pouco problematizadora apenas mostrava uma vereda profícua de criação que, observada de perto, era bem um caminho de pedras. Visto de forma simplista, esse ideal de fixação do ethos brasileiro e de sua representação artística desembocou, como se sabe, no sentimentalismo frouxo do Grupo da Anta (Plínio Salgado, Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo, entre outros), adorando exoticamente as tradições e promovendo o encarceramento regionalista.

Em perspectiva menos endógena, o "abrasileiramento do Brasil" exigia dos avanguardistas o desvencilhar de complexo nó teórico. Como incorporar o "conteúdo" tradicional, em sua multifária apresentação, às "formas" novas da modernidade? Ou sob outro ângulo, tornando mais complexa a noção de "forma", isto é, de "material" (a linguagem, a composição plástica, a tessitura musical), como expressar os elementos formadores da psique brasileira? Mário de Andrade logrou construir lapidarmente a equação quando, em uma nota sobre a pintura de Tarsila do Amaral, distinguiu "pintura" de "assunto". Esse esboço de análise encontrado em seu Fichário analítico – espécie de enciclopédia pessoal, manuscrito conservado no Instituto de Estudos Brasileiros da USP – coloca a problemática da expressão plástica nacional em uma chave interpretativa correta: "Pela primeira vez com [Tarsila] terminou a confusão entre nacionalizar a pintura e pintar o nacional". Depreende-se da afirmação de Mário que não basta ao artista reproduzir tipos e paisagens dos brasis. É necessário que as "formas do nosso humano tradicional", que o artefazer do brasileiro, captados na raiz da cultura, sejam portadores de caráter distintivo.

A expressão literária nacional tinha pela frente, para se desenvolver dentro da modernidade, a língua portuguesa e seus arbítrios escorados nos castiços exemplos lusitanos e na obediência brasileira. Isso significava, para os escritores modernistas, resolver um tríplice problema. Desde logo se impunha a necessidade de atualização dos meios expressivos, a partir da observação da liberdade sem peias vigente nas experiências lingüísticas das vanguardas européias do início do século. "Atualização" exprimia também o olhar do escritor para os múltiplos falares nacionais, observando a adaptação da língua portuguesa nos diversos estratos sociais e na geografia brasileira, sem cair no regionalismo. A voga do caipirismo dos escritores regionalistas cindia a linguagem literária ao contrapor a voz narrativa culta do autor ao estropiado dizer das personagens da roça ou do povo. Assim, romper com a caricaturização literária deveria figurar como segundo propósito. Na confluência dessas vertentes ainda cabia a formalização de um projeto literário que retratasse um Brasil mais verdadeiro, fértil em suas manifestações culturais e já reconhecendo as contradições de um país na rabeira do capitalismo.

Mário de Andrade, em carta de 15 de fevereiro de 1935 ao filólogo Sousa da Silveira, analisa os exageros conscientes de sua experimentação lingüística, lembrando nome de companheiros de geração que teriam atingido plenamente o intento de uma expressão nacional, desataviada e possante: "Não sou eu o artista que escreve em língua brasileira. É um Antônio de Alcântara Machado, é um Carlos Drummond de Andrade, é um Manuel Bandeira, é um Lins do Rego, todos indivíduos que dentro da realização lingüística [...] estão a dez léguas de mim mas estão também a dez léguas de Machado de Assis." À parte a acurada percepção crítica daquele que, já em 1935, inseria no panteão escritores ainda construindo suas obras, deve-se atribuir a Mário de Andrade a primazia de enfrentar o problema da "língua brasileira" ao formular uma "teoria" cambiante, em permanente desasossego e revisão. Ao mesmo tempo, o escritor concretizava a "prática" literária ao propor sistematizações e ousadias decisivas para o desenvolvimento da experiência lingüística na literatura brasileira, cujo ponto alto, deve-se imaginar, seriam os engenhos de Guimarães Rosa que o criador de Macunaíma, morrendo em 1945, não pôde desfrutar.

O pensar a "língua brasileira" em Mário de Andrade acalenta sempre a possibilidade do debate. O assunto perpassa toda a obra do escritor, como realidade perene de quem se preocupa com o próprio "instrumento de trabalho". O "Prefácio interessantíssimo" de Paulicéia desvairada, em 1922, no início do modernismo, alude à existência de uma "gramática" do inconsciente, infensa a regras no momento da criação poética. Abre guerra contra algumas intolerâncias normativas: "Pronomes? Escrevo brasileiro." Em outro ponto extremo da obra está, em 1944, a entrevista a Francisco de Assis Barbosa, "Mário de Andrade: ‘Os intelectuais venderam-se aos donos da vidaa’". Ali, no trecho sobre a "língua brasileira", o depoimento tinge-se com as cores do preceito ético subjacente às políticas da linguagem. Recomenda, então, aos intelectuais, "a procura de um instrumento de trabalho que os aproximasse do povo"; esse deveria ser considerado o "problema máximo" do intelectual brasileiro. A preocupação com o artesanato de uma escritura empenhada em comunicar por meio da conjunção do estético com o social valorizaria a criação: "Esta noção proletária da arte, da qual nunca me afastei, foi que me levou, desde o início, às pesquisas de uma maneira de exprimir-me em brasileiro". Entre o primeiro passo, o enfrentamento das regras gramaticais lusas e o último, a transferência da problemática da "língua brasileira" para o âmbito da moral, pululam discussões, em diversos níveis. Nos anos 20 destacam-se algumas crônicas no Diário Nacional de São Paulo, abordando a reforma ortográfica da Academia Brasileira de Letras, além da Gramatiquinha da fala brasileira e do diálogo com Pio Lorenço Correa, seu Tio Pio, primo mais velho versado em questões lingüísticas. Tio Pio contestou as rebeldias gramaticais do romance Amar, verbo intransitivo, obrigando o autor a lhe responder. Outro campo de enfrentamento intelectual localiza-se na contenda amigável (mas ferrenha) que viceja na correspondência de Mário com o poeta Manuel Bandeira, entre 1922 e 1944. - See more at: http://www.teoriaedebate.org.br/materias/cultura/coragem-de-escrever-brasileiro#sthash.kI347E7G.dpuf

2 comentários:

Eloah disse...

Adorei o texto! Complicado escrever nossa língua portuguesa, mas aventureiras que somos vamos ensaiando e até publicando.Não nos deixamos intimidar.
Felicidades amiga e muitas cores para iluminar tua vida.Bjs Eloah

Aline Carla disse...

Temos orgulho em sermos brasileiras! Saudades Eloah! Que sua vida seja sempre cheia de cor! Beijos.

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