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"A arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível."

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O que é essa tal de Arte?


O que é ou o que deixa de ser arte, o que tem ou não valor, o ser ou o não ser um reflexo do espírito humano.
O que afinal é arte? Essa discussão é um problema antigo e para o qual eu não tenho a pretensão de ter solução ou uma resposta que venha a fazer grande diferença, mas pretendo levantar a discussão e ver se todos os amigos leitores que por aqui passam deixam sua contribuição e opinião sobre o tema, e assim creio que em conjunto poderemos ter algo bem interessante sobre o assunto. 

Começarei com minhas opiniões. Tenho uma visão sobre arte, de que ela deve possuir um conjunto de fatores, entre eles técnica, método, estética, relevância e criatividade. Quando falo em técnica não uso o termo no sentido tradicional, de que as coisas devam ser feitas de forma acadêmica, mas no sentido de controle, do uso de ferramentas de forma razoavelmente consistente, o fazer algo que tenha suficiente grau de controle para que o autor possa repetir o processo e desta forma gerar outra obra que seja coerente com a primeira, e assim sequencialmente.

 A técnica seria por assim dizer a ferramenta que permite que algo seja feito e refeito ao longo do tempo. Isso exclui uma obra que seja originada no caos, em processos sem controle, fruto do puro acaso. Deste modo o termo técnica irá se mesclar no método, fará parte do mesmo, que é o sistema pelo qual o autor realiza sua obra. A repetição do método e da técnica irão gerar diversas obras, variando em tema, em criatividade, em estética, mas com uma base comum de realização. A estética é mais problemática, ela foge da área mensurável e identificável da técnica e do método e entra na subjetividade, o que é estético para um pode não ser para outro, mas ainda assim, vejo a necessidade de uma estética que dê corpo a uma obra. 

Quando vejo diversas pinturas de Vermeer, há um parentesco estético entre elas, ao observar muitas fotos de Bresson novamente essa relação de uma coerência estética se faz notar, ao ouvir toda a obra de Mozart encontro novamente um traço que liga uma obra a outra. É esse traço que parece dar coerência ao conjunto de uma obra que chamo de estética. Relevância traz a questão social da arte e perguntas como: essa arte muda alguma coisa? Quebra algum paradigma? Inicia um novo movimento? Desperta a fúria ou o amor na sociedade? Ela irá pautar discussões entre as pessoas? Relevância é isso, é nascer de uma sociedade e interferir nessa mesma sociedade, é se alimentar do mundo para voltar a alimentar o mundo. Uma obra que pareça vir do nada e que nada cause à sociedade parece estéril, inútil. Por fim a criatividade. Apenas repetir o que alguém já fez, copiando, pode demonstrar técnica, estética e método, mas mostrará pouca relevância e muito menos criatividade.

 Não digo que tenhamos que fazer algo de novo o tempo todo, nem sei se isso é possível, mas tomarei de exemplo os filmes de Quentin Tarantino. Quase todas as cenas, enquadramentos, movimentos de câmera, e mesmo os personagens e muitos diálogos em seus filmes vieram de outros filmes, ele como grande fã de cinema busca referências e faz novas misturas com esses elementos criando algo que no final das contas é criativo, então se ele não inova na criação de novos elementos, sua criatividade está na nova mistura de elementos conhecidos, penso que essa lógica possa se aplicar a qualquer arte. Desse conjunto de termos acima, e seus significados, tiro um conceito muito pessoal do que considero arte, e daquilo que opto por desconsiderar. Muito do que faço cai no lado desconsiderado, a maioria das fotos que fiz na vida não são arte, no máximo são artesanato bem feito, que tem técnica, estética e método, mas cairão ao pensarmos na relevância e na criatividade. Por outro lado vejo por aí exemplos de artes que até são criativas, mas que são de tal forma fruto de acasos que tenho dificuldade em chamá-las de arte e aqui entro num debate sobre as artes contemporâneas, tão fugazes e perecíveis (com exceções, é claro). 

O problema das artes contemporâneas é que muitas são baseadas na idéia de que apenas a criatividade basta para ser arte, apenas uma idéia ser ou parecer nova basta, se é novidade é arte. Esse fator me incomoda pois dá origem ao qualquer coisa é arte e qualquer um é artista. Esse raciocínio do qualquer coisa é arte talvez tenha nascido com Duchamp e seus “ready mades”, possivelmente tenha atingido seu auge com Piero Manzoni, um sujeito que conseguiu colocar em galerias de arte latas cheias de fezes, lacradas e rotuladas como “Merde D’Artiste”. Algumas dessas latas são leiloadas até os tempos atuais por altas somas. Tenho grande dificuldade em aceitar que uma lata cheia de fezes seja arte, na verdade não aceito, direi até o fim de meus dias que isso não é arte. E tenho sérias tendências de achar que quem compra uma lata dessas por uma soma de dinheiro capaz de saciar a fome de centenas de pessoas seja alguém com graves problemas mentais. 

Mas isso, como eu disse, é uma questão minha, uma opinião. Não é que eu não goste de arte moderna, gosto de muitas coisas produzidas hoje, muitas mesmo, mas precisa haver método, técnica, estética, relevância e criatividade, não pode ser fruto do nada, do acaso. E não é que não devamos refletir sobre a importância dos dejetos humanos, refletir sobre o tema etc., mas não precisamos chamar de arte. Por isso sempre digo que Picasso era um gênio, mesmo que esteticamente eu não goste tanto de suas pinturas, mas a pertinência histórica, a influência, a metodologia apurada de quem estudou os acadêmicos para conscientemente romper com os cânones aceitos da arte, a técnica e a estética única de suas obras o diferencia do mundo e o coloca em um grande destaque, o destaque dado aos gênios. Por isso fotógrafos como David LaChapelle e Annie Leibovitz, entre outros, são artistas. Eles não são obra de acaso, nem suas obras são resultado de esforços pequenos, ordinários, e sim fruto de todos os fatores que mencionei acima. E se eu defendo que esses são artistas, tenho que rejeitar os chamados “ready mades” desde Duchamp, pois seria ofensivo aos outros em minha opinião. Como colocar no mesmo pedestal uma lata cheia de fezes e uma Guernica? E como colocar também no mesmo patamar uma foto de Annie Leibovitz e uma imagem qualquer captada de forma qualquer? Não posso fazer isso. Isso em nada se relaciona ao mercado de arte, esta discussão é mais filosófica e não de valores financeiros. O mercado de arte é igual à bolsa de valores, não se baseia em valores reais ou filosóficos, e sim no que der mais lucro, e aí temos uma boa razão para a arte ter se tornado tão vazia, algo que não faz refletir ou pensar, o máximo que provoca é um superficial ”olha que legal, que bonito”. Ou no oposto despertará reações de nojo, horror etc., mas sem reflexão ou importância social. Estas coisas de efeito rápido mas sem profundidade andam vendendo bem no mercado de arte, pois assim se tornam obsoletas rápido para abrirem espaço para novas vendas, apenas dinheiro. Estas foram minhas reflexões, muito do que penso sobre arte e que podia ser resumido em um artigo está aqui, agora espero as opiniões dos amigos, suas reflexões e idéias, para podermos debater o tema, não querendo chegar numa conclusão, acho que não é possível, mas apenas para ter o maior número de opiniões mesmo, um grande leque sobre o que fotógrafos e apreciadores de fotografia andam pensando sobre arte. Ilustro este artigo com um vídeo de minha autoria, o No Fish. Muito do que meu trabalho ao longo dos anos com fotografia careceu de significado, simbolismo e criatividade, penso ter encontrado ao passar a produzir vídeos, este é um momento de mudança para este colunista, fotógrafo e professor de fotografia, o momento em que finalmente, depois de tantos anos de carreira, parece que estou me entendendo comigo mesmo enquanto autor. Nos vemos em breve, []’s -

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