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sábado, 24 de agosto de 2013

O UNIVERSO INFANTIL EM ADRIANA CALCANHOTTO


Expressando toda a gentileza artística para cultivar a arte nas crianças sem idade; subvertendo a concepção da subestimação infantil.



Tendo o esboço do viés infantil quando, para homenagear os 90 anos de Vinicius de Moraes, planeja dedicar uma biografia do 'poetinha' para as crianças, mas vislumbra no poema O Poeta Aprendiz (concebido em 1958, por Vinicius) a força necessária para evocá-lo. O brotar do livro homônimo vem em 2003 e apresenta Calcanhotto em uma linguagem pouco conhecida do público; a de desenhista, ilustradora. Nesse livro-disco, Adriana ilustra e canta a poesia musicada por Toquinho.

Com o heterônimo Partimpim, Adriana oferece amplidão para o seu desassossego inventivo. Passa-se 10 anos entre a ideia e a concretização do desejo de fazer um álbum para crianças, quer dizer, também para crianças, pois ‘’fazer um álbum para um público determinado, delimitado, pré-estabelecido carece a arte’’, como enfatiza Adriana. Seu alter ego infantil nasce em 2004.

As diferenças basilares entre Calcanhotto e Partimpim são: o ato da composição e o modo de se manifestar, já que a expansiva Partimpim se realiza substancialmente como intérprete, sem os sofrimentos, tormentos emergidos das composições da minimalista e intimista Calcanhotto. Partimpim (nome inventado por Adriana na infância para mostrar sua individualização perante os Calcanhottos) representa o lúdico e o deslumbramento diante das insignificâncias mais ínfimas rotuladas pelos olhares corrompidos dos ‘’adultos’’.

Sendo por meio da música seu primeiro contato com a poesia, Adriana faz de Partimpim uma vereda para o conhecimento da poesia (no sentido mais amplo) de vários artistas, sem subestimar as crianças; fazendo a arte transversal. A leveza evidenciada no experimentalismo dos arranjos mostra a pesquisa de Adriana para gerar atmosferas que vão da diversão ao acalento; descontextualizando as músicas.

Com composições de Chico Buarque, Arnaldo Antunes, Paula Toller, entre outros, constrói o primeiro álbum de Partimpim, chamado de ‘’Adriana Partimpim’’. Ainda contando com a poesia, na faixa “Canção da Falsa Tartaruga”, de Lewis Carroll, traduzida por Augusto de Campos e musicada por Cid Campos. O álbum que culmina no DVD ‘’Adriana Partimpim – O Show’’ revela a verdadeira dimensão de Partimpim: no palco.
No hiato de 5 anos para a criação do segundo álbum, Partimpim amadurece artisticamente; almejando independência entre os álbuns. O ‘’Partimpim 2’’ adentra num espectro mais amplo, mais variado que no primeiro e com 3 músicas de autoria de Adriana. Perpassando por Bob Dylan (na música ’’O Homem deu Nome a Todos os Animais’’, na versão de Zé Ramalho), Villa-Lobos (na música ‘’Trenzinho Caipira’’, com poema de Ferreira Gullar), Vinícius de Moraes, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Roberto Carlos/Erasmo Carlos... O DVD ‘’Dois é Show’’ é mais libertário, mais ousado, e mescla, nessa festividade, as músicas do álbum anterior; rearranjadas, com auxílio dos músicos Davi Moraes, Domenico Lancelotti, Moreno Veloso (músicos que sempre adentram no mundo adrianesco). Pode-se dizer que se apresenta uma Partimpim mais despudorada.

Empolgante versão da música de Caetano Veloso
Adentrando em um espaço mais tranquilo, ‘’Tlês’’, o terceiro álbum da vertente Partimpim (lançado em 2012), vem desfocado da festividade e euforia dos anteriores. Com provocações sutis, a proposta agora é o aconchego despretensioso, mas que exala, por suas fábulas de ninar, contextos filosóficos. Mais denso e mais sofisticado, Adriana engendra versões primorosas para músicas tão conhecidas, como ‘’Taj Mahal’’ (Jorge Ben Jor) ‘’O Pato’’ (Jayme Silva/Neusa Teixeira, mas conhecida na voz de João Gilberto), ‘’Passaredo’’ (Chico Buarque e Francis Hime), ‘’De Onde Vem o Baião’’ (Gilberto Gil), ‘’Tia Nastácia’’ (Dorival Caymmi), ‘’Lindo Lago do Amor’’ (Gonzaquinha)... E parcerias com Paula Toller (na música ‘’Salada Russa’’), com João Callado (na música ‘’Também Vocês’’) e com Domenico Lancelotti (na música ‘’Por Que os Peixes Falam Francês?’’).


Como diz o poeta Manoel de Barros:
‘’O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê
É preciso transver o mundo’’

Esses versos expressam de forma definitiva a arte de Adriana Partimpim e seu eco.

Sem o heterônimo Partimpim, Adriana lança o livro ‘’Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira: Para Crianças de Qualquer Idade’’, em 2013. Ilustrado e organizado por Calcanhotto, o livro reúne, comungando com a cronologia da literatura brasileira, poemas de delicadeza infantil, mas que dialogam com leitores de qualquer idade, como o subtítulo explicita. Lançando-se na poética de Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Adélia Prado, Gregório Duvivier... Enfim, o livro é ‘’para aqueles que estão descobrindo as primeiras palavras ou os que estão sempre (re)descobrindo o sabor da poesia’’.

‘’Biografia

Entre o olhar suspeito da tia
E o olhar confiante do cão
O menino inventava a poesia’’

QUINTANA, Mário. In: ‘’Biografia’’, Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira: Para Crianças de Qualquer Idade.

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